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Elas transgrediram o machismo e fizeram a ciência avançar

22 de novembro de 2013

Memória. Russa Sophie Kowalevski precisou estudar matemática e física em segredo por causa da desaprovação de seus familiares

Mostra conta a história de mulheres que contribuíram para o avanço do mundo desde o século 17

Nova York, EUA. Florence Nightingale foi estatística? Marie Curie esteve em um fronte de batalha em plena Primeira Guerra Mundial para fazer radiografias de soldados feridos? A resposta é sim para essas duas perguntas.

Muitos desses detalhes impressionantes e pouco conhecidos fazem parte de uma exposição sobre a vida de 32 mulheres que deram contribuições importantes à física, química, astronomia, matemática, computação e medicina do século 17 ao 20. Algumas das mulheres são famosas; muitas outras não. Nove chegaram a ganhar prêmios Nobel.

A exposição celebra as realizações delas e deixa claro que todas se mostram ainda mais extraordinárias se considerarmos os preconceitos profundamente arraigados que tiveram de superar. Muitas tiveram pais que achavam impróprio ou inútil educar meninas, passaram por universidades e associações profissionais que não admitiam mulheres ou tiveram de lidar com empregadores que não as contratavam ou que não pagavam um salário justo.

No entanto, elas encontraram também orientadores e apoiadores que lhes abriram as portas e lhes deram crédito quando buscavam a afirmação num mundo que era ainda mais machista do que o atual. A exposição levou cerca de três anos para ficar pronta, fruto do trabalho de três estudiosos da história da ciência que colecionam livros, manuscritos e objetos de pesquisa:

Ronald K. Smeltzer, um engenheiro elétrico aposentado; Paulette Rose, uma negociante de livros raros; e Robert J. Ruben, professor da Faculdade de Medicina Albert Einstein.

Origem. Muitos dos itens em exposição vêm de coleções pessoais dessas mulheres, embora alguns tenham sido emprestados de bibliotecas e museus. Esboços biográficos bem redigidos, publicados no catálogo da exposição, descrevem o trabalho científico das mulheres, associando-o ao contexto de sua vida pessoal e à época em que viviam.

Um dos capítulos mais envolventes trata de Hertha Ayrton, nascida na Grã-Bretanha em 1854, que, quando era adolescente, abriu mão do nome que lhe foi dado, Phoebe, para adotar o de uma deusa.

Ela se tornou engenheira elétrica especializada em arcos elétricos e sistemas de iluminação e publicou uma série de artigos e um livro sobre o assunto. Porém, em uma reunião da Real Sociedade de Londres, em 1902, ela não foi autorizada a apresentar o seu próprio trabalho; sua fala teve que ser lida por um homem. A Real Sociedade também a declarou inelegível para ser um de seus membros, vindo a aceitar o ingresso de uma mulher apenas em 1945.

Ayrton esteve envolvida no movimento sufragista, e entre os tesouros da exposição está uma cópia de um formulário do censo realizado na Inglaterra e no País de Gales em 1911 que foi enviado a ela. A engenheira o mandou de volta em branco, apenas com a sua assinatura e um comentário corajoso e elegante: “Como posso responder a todas essas perguntas se eu não tenho inteligência para votar entre dois candidatos para o parlamento? Não vou fornecer essas informações até ter meus direitos como cidadã. Viva o voto feminino”.

Genética. Outro documento de valor inestimável em exposição é um saco de papel longo, estreito e marrom, do tipo que os cientistas usam para cobrir plantações de milho para impedir que elas fertilizem os parceiros errados. O catálogo da exposição descreve esse saco como um “manuscrito”. De fato, ele tem anotações e um esboço feito pela geneticista Barbara McClintock quando ela descobriu a solução para um enigma cromossômico dos mais complicados. McClintock ganhou o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1983.

Guerra. Embora a maioria das pessoas associe Florence Nightingale à enfermagem, ela tinha outro lado, mais experimental. Obcecada com a coleta de dados, Florence inventou técnicas gráficas e usou estatísticas para provar seus argumentos e pressionar o governo por reformas de saúde que até hoje são discutidas nos Estados Unidos. Por exemplo, ela demonstrou a partir de números e estatísticas que, na Guerra da Crimeia, em 1850, o número de soldados britânicos que morreram em decorrência de doenças causadas pela falta de saneamento nos frontes foi maior do que o daqueles que vieram a óbito por conta de ferimentos causados pelos combates de guerra em si.
Desdenhada, astrônoma fez história em Harvard

A Universidade de Harvard era menos respeitosa com outras mulheres. Cecilia H. Payne-Gaposchkin é reconhecida hoje como uma das fundadoras da astrofísica moderna. Em 1923, contudo, o departamento de física de Harvard a rejeitou como estudante de pós-graduação, já que as mulheres não tinham permissão para cursar doutorado.

Ainda assim, ela encontrou um orientador, que a aceitou como aluna. Em dois anos, publicou seis artigos e concluiu uma tese considerada a mais brilhante da época.

Não obstante, Harvard ainda a tratou com desdém. Cecilia só foi efetivada como professora em 1956, quando se tornou chefe do departamento de astronomia e entrou para a história como a primeira mulher a chefiar um departamento na universidade.
Grolier
Onde?
 A exposição “Mulheres Extraordinárias em Ciência e Medicina” está sendo feita desde o fim de outubro no Clube Grolier, em Nova York. Há diversos registros das cientistas: de fotos até teses de doutorado.

PUBLICADO EM 22/11/13 – 03h00
DENISE GRADY
THE NEW YORK TIMES