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“Quebrando espelhos”,por Flávia Beduschi

17 de outubro de 2013

Por todo o lado vemos mulheres se esforçando. Elas se esforçam para serem lindas e boas. Mas aqui cabe a pergunta: o que é ser linda e boa? Para que e para quem?

Basta um breve relance na história. Fomos de um modo geral treinadas para sermos “boazinhas”. Assentir e ficar em silêncio, sermos amáveis, doces e gentis. Ora, curiosidade de mulher? Enxerida. Curiosidade de homem? Investigativo. E ai da mulher que seja atrevida, nada conveniente.

Em consequência, geração após geração, escamoteamos os desejos profundos de nossa alma para locais de difícil acesso. Fomos matando parte de nossa vida instintiva e nos escondendo de nossa intuição. Perdendo o contato com nós mesmas em busca de adequarmo-nos a o que seria o “certo”.

Quantas mulheres não vivem para obter aprovação de um externo, de uma sociedade, que a afunda em um mar de superficialidades? Um vazio de ações e pensamentos que em nada alimentam sua alma. Caminhamos perdidas, esquecidas de nós mesmas. Sem vitalidade, sem autoconhecimento. Com medo de atrever-se, de lutar por sonhos, de buscar novos sentidos, de agir com espontaneidade, com insegurança demasiada perante os desafios colocados pela vida?

E quanto as reflexões sobre o “belo”? Vemos um quadro composto por jovens mergulhando em pensamentos neuróticos e cobranças que as afastam de sua real essência, de suas virtudes, eliminando a possibilidade de carinho e amor por si mesmas. Não dão espaço para o surgimento de sua sabedoria, e, não obstante, abrem perigosos caminhos que podem culminar em doenças como a anorexia ou a bulimia.

Há muito tempo sou admiradora da cultura indígena e, sobretudo, da sabedoria das mulheres. Extremamente cuidadosa com sua cria, com seu trabalho, demonstra profundo respeito por seu semelhante e pela natureza. Observa a natureza. Aprende com ela. Sabe ser agressiva. Assim como é capaz de amar, de ter devoção. Sabe afastar-se quando vê um animal maior. Reconhece suas potências, e mais importante, suas impotências. Desenvolve então habilidades de enfrentamento e fortalecimento frente os diferentes contextos aos quais se depara.

A questão não é ser igual a elas. Cada mulher reserva um mundo maravilhoso e único dentro de si, que espera para mostrar-se a partir do momento que saímos da postura alienante e nos permitimos questionar. O que a meus olhos as tornam tão especiais (assim como outros exemplos de mulheres que poderiam ser também citados) é a harmonia que possuem com sua alma. Sentem suas necessidades e as respeitam. Enxergam as potencialidades, e investem. E isso implica em ser capaz de ouvir o que vem de dentro: Não fugir de suas trevas, não considerar-se perfeita. Reconhecer sua humanidade, seus limites e suas necessidades. Admirar suas luzes. Ser capaz de manter os olhos abertos para os desafios. Saber que precisa muitas vezes lutar. E não só saber que precisa, como de fato lutar, tanto em seu mundo interno quando externo.

No entanto, aprendemos a ter medo de ousar. Sutilmente treinadas para a cegueira, privando-nos da defesa, da coragem e da nossa intuição. Vivemos, portanto, como um espelho social. Só que um espelho produz uma imagem, e uma imagem está muito longe do que realmente somos. Uma imagem que muitas vezes, refém das leis da física, é ainda, distorcida. Então, quebremos o espelho.
Graduanda em Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais e Graduada em Psicologia Universidade de São Paulo – Ribeirão Preto