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Sem pista duplicada, BR-381 tem 52,5% mais mortes

2 de julho de 2012

Neste ano, foram 40 óbitos de BH a São Paulo contra 61 no sentido Vitória

João Monlevade, Ipatinga e Nova Era. A fama de rodovia da morte não é à toa. Só nos primeiros cinco meses deste ano, 61 pessoas perderam a vida na BR-381, no trecho de 314 km entre Belo Horizonte e Governador Valadares, de acordo com dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Isso sem contar as vítimas que morrem horas depois dos acidentes, nos hospitais, e que não entram nas estatísticas. O percurso de pista simples e sinuoso mata 52,5% mais do que a parte duplicada e privatizada da rodovia, com 463 km, chamada de Fernão Dias, entre as capitais mineira e paulista. Nesse trecho, 40 morreram no mesmo período deste ano.

A promessa do governo federal é lançar, até setembro, o edital de licitação da tão esperada duplicação da rodovia da morte. Mas enquanto a obra não sai do papel, o perigo continua a fazer parte da vida de milhares de pessoas que passam pelo trajeto ou moram nas cerca de 30 cidades às margens da estrada. A PRF estima que 20 mil veículos trafeguem pelo trecho que deverá ser duplicado em dias comuns, entre carros de passeio e muitos, muitos caminhões, carretas e bitrens, que atendem, em sua maioria, às mineradoras e siderúrgicas da região com materiais pesados.

Só no trecho de serra de cerca de 100 km, entre Belo Horizonte e João Monlevade, considerado o mais perigoso, há algo entorno de 200 curvas. O asfalto é tomado por marcas de pneus deixadas pelos caminhões, que acabam tombando no trecho. De janeiro a maio deste ano, foram 1.063 acidentes nesse percurso, uma média de sete por dia. E nem os inúmeros radares espalhados pela estrada freiam o perigo, já que, nos primeiros cinco meses de 2011, o índice de acidentes foi quase idêntico ao de 2012, com 1.064 casos.

O Hospital Margarida, o maior de João Monlevade, recebe, em média, cem acidentados por mês, todos vítimas de ocorrências na BR-381.

A reportagem do jornal O TEMPO passou três dias percorrendo o trecho de 314 km e se deparou com a realidade de quem é obrigado a conviver com o medo, os traumas e as perdas. É o caso da dona de casa Janice Galo Faustino, 55, que perdeu o marido há seis anos em um acidente na rodovia. José Maria tinha 55 anos quando foi atingido por um carro no acostamento. “Toda vez que olho para a 381, lembro dele”, diz a viúva. Moradora de Nova Era, na região Central, ela avista a rodovia do portão de casa.

Ali perto, outra história trágica. A dona de um restaurante à margem da 381, que preferiu se identificar apenas como Aparecida, 48, perdeu o pai, o irmão e o cunhado em acidentes na mesma estrada. “Meu pai faleceu há 20 anos, acreditando que a duplicação estava prestes a acontecer”.

Entre tantas tragédias, há também relatos de sobreviventes, como o do vendedor Railson Rodrigues dos Santos, 41, que ficou 33 dias em coma e 13 sem memória, em 2008. “Perdi o controle do carro em uma curva da 381 e cai na ferrovia, onde fui prensado por um trem”.

Até socorristas sofrem com os perigos da 381

Quem salva vidas na BR–381 também convive com o risco iminente de acidentes. A socorrista do Serviço Voluntário de Resgate (Sevor), Tarcila Prandini de Oliveira, 30, capotou uma ambulância em 2010 ao prestar atendimento no trecho próximo a João Monlevade. “Era uma manhã chuvosa de domingo, pós-feriado de Natal, e havia três acidentes ao mesmo tempo, a poucos metros de distância um do outro”, lembra.

No caminho para o socorro, o carro de Tarcila deslizou na pista e caiu em uma ribanceira. “Havia muito óleo na via”. O veículo teve perda total e Tarcila sobreviveu apenas com arranhões e dores na cabeça. “Hoje, tenho consciência do perigo que é a 381”, conta.

Ela é uma entre os 55 socorristas do Sevor, grupo voluntário criado há 13 anos. Apesar do alto índice de acidentes na BR–381, João Monlevade não tem Corpo de Bombeiros nem Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A equipe atua 24 horas e atende em média cem ocorrências por mês.


Obras só devem ser concluídas no fim de 2015

Governo federal admite que está com o cronograma bastante atrasado

Ipatinga, Governador Valadares e Periquito. Embora a presidente Dilma Rousseff tenha prometido, no mês passado, que em julho ficam prontos os projetos executivos das obras da BR-381, a duplicação deve demorar no mínimo três anos para se tornar realidade. A previsão otimista do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) é de que o novo formato da via, que ganhou o nome de Rodovia da Morte pela coleção de tragédias, seja entregue no fim de 2015.

Além de pistas duplas, a BR-381 deverá ter menos curvas e novas pontes, túneis e viadutos. Isso se as empreiteiras começarem a trabalhar no primeiro semestre de 2013, sem interrupções.

O diretor de Planejamento e Pesquisa do Dnit, José Florentino Caixeta, garantiu que vai cumprir as promessas da presidente e deverá lançar, até setembro, o edital de licitação dos oito lotes que compõem a obra. “Não vamos mais esperar todos os projetos ficarem prontos para abrir contratação. Os que já estiverem mais adiantados sairão na frente”, afirmou ele, em uma audiência pública em Ipatinga, no Vale do Aço, na última quarta-feira.

A promessa de duplicação da BR-381 tornou-se sistemática desde 2005. Primeiro, foi iniciado um estudo para avaliar a viabilidade técnica da obra. Em 2009, foi feita a contratação das empresas responsáveis pelos projetos executivos, que ainda estão em fase de finalização. “Estamos realmente muito atrasados, mas todo o grupo está envolvido para acelerar o projeto”.

A duplicação da 381 está avaliada em R$ 2,5 bilhões, conforme os projetos executivos. Um dos pontos polêmicos da obra é o trecho de 72,8 km entre Governador Valadares e Belo Oriente, que terá apenas 22% das pistas duplicadas. “Esse trecho não tem fluxo tão intenso de veículos como os outros. Por isso, receberá outras melhorias, como passarelas e recuperação do asfalto”.

Destino incerto

Comerciantes à beira da estrada temem mudança

As promessas de duplicação da BR–381 deixam em alerta comerciantes que se arriscam diariamente às margens da rodovia para vender produtos regionais e artesanato. Em Periquito, no Vale do Aço, 17 vendedores de tapetes, palmito, pimenta e outras iguarias temem que a obra os afaste da estrada e tire o sustento de suas famílias.

“Vivo do meio salário mínimo que consigo tirar aqui. Quero saber o que eles pretendem fazer com a gente”, afirmou a comerciante Rosa Maria Soares, 42, que há 12 anos trabalha na 381.

O presidente da Associação dos Pequenos Comerciantes e Artesãos de Periquito, Adão Soares de Carvalho, disse que já tem um advogado e vai aguardar a resposta do governo sobre o futuro dos comerciantes para decidir o que fazer. “Para o pessoal vender bem, eles precisam estar próximos da rodovia. Por isso, esperamos que nos arrumem uma área adequada para trabalharmos”, declarou.

O Dnit não soube explicar ainda qual será o destino dos comerciantes. Informou também que os motoristas terão de ter paciência com os transtornos que as obras vão provocar.

Motoristas convivem com cenário de morte

Não faltam histórias de acidentes e mortes entre os caminhoneiros que circulam pela BR–381, no trecho entre Belo Horizonte e Governador Valadares. “Se você perguntar para qualquer um aqui, ele vai ter uma tragédia para te contar”, afirmou Dilson Alves Araújo, 39. Ele mesmo já foi vítima em 2007, quando tombou um caminhão bitrem em uma curva. “Não tem um dia que não me lembro disso”, disse Araújo, que sonha em mudar de profissão.

O caminhoneiro Adeir Antônio dos Alívios, 52, comemora o fato de nunca ter se envolvido em acidentes em 32 anos de estrada, mas alega ter presenciado muitos. “Já vi corpos mutilados, uma coisa horrível”, comentou.

 

Fonte: O Tempo