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‘Pibinho’ também rouba o brilho da moeda brasileira

25 de junho de 2012

As variações extremadas do real são reflexo do próprio tamanho da economia brasileira e de seu mercado de capitais bem mais desenvolvido e aberto que de seus pares. A avaliação é do analista para América Latina da consultoria inglesa Timetric, Carlos Pallordet.

Na visão de Pallordet, a fraqueza do real é reflexo de características domésticas. Ele cita o prolongamento do ciclo de corte da Selic como um dos fatores que influem no comportamento da moeda. Antes, se trabalhava com juro próximo de 9%, mas agora, diz o especialista, a taxa básica deve ir a 8% em julho e não se descarta taxas ainda menores.

Outro aspecto é que o país não apresenta mais uma brilhante história de crescimento. “O ponto central é que o Brasil está custando a crescer”, diz.

Em 2010, o crescimento foi forte, diz ele, 2011 foi o período de acalmar a inflação, e 2012 começou com uma promessa de crescimento que não se cumpre. “Isso também muda o ânimo dos investidores.”

Nesse aspecto, Pallordet bate no mesmo ponto de diversos economistas locais e externos. O país tem de levar adiante as esperadas reformas estruturais, que vão abrir caminho para queda de custos e ganho de competitividade.

Ainda assim, Pallordet fala a seus clientes do setor financeiro e corporativo de Londres, que está otimista com o país.

Para ele, o crescimento deve melhorar no decorrer do ano e o governo deve aproveitar esse momento para levar adiante essas mudanças estruturais.

Para o especialista, o peso da desaceleração da economia chinesa e do preço das commodities é limitado para explicar a formação de preço do real.

“No começo do ano, as commodities já vinham caindo, mas o real seguia apreciando. Fora isso, outras moedas como o peso colombiano e o peso chileno seguem em alta, agora, mesmo com essa perda de valor das matérias-primas”, diz.

O peso colombiano, por exemplo, é destaque de valorização em 2012 com ganho de 8,23%, melhor desempenho entre todas as 170 moedas acompanhadas pela “Bloomberg”. Recentemente, o ministro do país, Juan Carlos Echeverry, parafraseou o ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, ao usar o termo “guerra cambial”, para lidar com esse fortalecimento da moeda.

O peso vai bem, obrigado, conforme o país cresceu 5,9% em 2011 – ante 2,7% do Brasil -, atrai investimentos e mostra previsão de alta do PIB de 5% para 2012. O peso chileno, por sua vez, tem valorização mais moderada no acumulado do ano: 3,26%.

Já o real, mesmo sendo destaque de baixa no acumulado de 2012, Pallordet lembra que a moeda brasileira ainda apresenta uma das maiores apreciações mundiais considerando-se os últimos cinco anos, algo em torno de 25% no acumulado do período. Então, o real segue como uma moeda relativamente forte.

Sobre o recente movimento de depreciação da moeda, o analista credita parte dele às ações do governo e parte à piora externa. “As ações do governo fizeram o dólar partir de um patamar mais alto”, explica.

Deixando de lado a conjuntura e olhando as questões estruturais, que prevalecem no médio prazo, o professor da FEA-USP, Carlos Eduardo Gonçalves, aponta que é difícil não imaginar uma valorização do real dentro de um horizonte mais dilatado.

Para o professor, a China segue com bom espaço para crescimento e isso quer dizer que o preço das commodities também tem espaço para subir. Claro que não se espera aumentos de preço como no período de 2004 a 2008, mas essa valorização, diz ele, se manifestará por aqui.

“Com a vantagem comparativa do Brasil em commodities, é difícil pensar em câmbio depreciado em um horizonte de cinco anos”, acrescenta Gonçalves, lembrando que o país desfruta de boa posição como exportador de alimentos, metais e, dentro desse horizonte, o petróleo também deverá estar com maior peso dentro da pauta.

No curto prazo, no entanto, diz o professor, o governo deve continuar “forçando” o dólar para cima.

 

Fonte: Valor Econômico