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PIB fraco afeta de investimentos a empregos

9 de julho de 2012

Brasil pode crescer abaixo de 2% este ano, atingindo até o salário mínimo de 2014

 

A cada divulgação de dados oficiais fica mais nítido que a economia brasileira patina pelo segundo ano consecutivo. Neste cenário, analistas dizem que, se o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) crescer 2% em 2012, já pode ser considerado um bom resultado, isso porque aumentam as apostas entre 1,5% e 1,8%. E o ritmo fraco do PIB começa a ser sentido na vida dos brasileiros, que estão mais receosos e temem que a crise se agrave, o que pode esfriar ainda mais a economia.

Mas o que significa para o Brasil crescer 2% ou menos este ano? Economistas ouvidos pelo GLOBO acreditam que os problemas tendem a ser cada vez mais sentidos pelas pessoas no seu cotidiano e pelas empresas. Uma forte redução dos investimentos causados pela frustração dos empresários, que esperavam crescimento na faixa de 4%, deve dificultar ainda mais a criação de empregos. Além disso, a renda per capita no país pode ter uma variação muito baixa e o salário mínimo deverá ter um crescimento fraco em 2014 — a atual regra faz com que o salário básico da economia seja reajustado levando em conta a inflação do ano anterior e o PIB de dois anos antes.

— Nossa projeção de crescimento é de 1,8% este ano e, depois dos últimos dados da produção industrial, está cada vez mais fácil que o crescimento fique perto de 1,5% do que de 2%. Apesar das medidas, como o corte de juros, não está garantido que a economia se aqueça no segundo semestre. E, se essa perspectiva não mudar, os problemas serão cada vez mais sentidos — afirma Armando Castelar, coordenador de Pesquisas Aplicadas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Para o professor, a criação de empregos fica mais prejudicada. Ele lembra que um fenômeno pouco usual fez com que, nos últimos anos, o emprego e a renda se mantivessem crescendo acima da economia: as vagas foram abertas em setores muito específicos e intensos em mão de obra, como comércio, construção civil e bancos, além de parte dos dados representar uma formalização do mercado de trabalho:

— A geração de empregos é uma preocupação crescente agora. O fraco desempenho da economia nacional é fruto do baixo investimento. E o investimento tende a continuar baixo com isso, é um círculo vicioso — diz Castelar, que defende uma política agressiva para aumentar a infraestrutura, inclusive com a privatização de estradas, aeroportos e portos, para atrair mais investimentos e aumentar as expectativas.

Para o professor Reinaldo Gonçalves, da UFRJ, o baixo crescimento, cerca da metade da média histórica do país como República (4,5%), chega às pessoas:

— Uma das consequências será um baixo crescimento do salário mínimo e geração de empregos medíocre — avalia, acrescentando que a culpa pelo atual resultado é, indiretamente, da própria presidente Dilma Rousseff. Para ele, o governo fez política eleitoreira em 2010, quando a economia cresceu 7,5% facilitando a eleição da presidente.

Apesar da redução do emprego, ele ainda deve crescer este ano em um volume maior que a expansão da População Economicamente Ativa (PEA). Para o economista Alex Agostini, da Austin Rating, o avanço da PEA é igual ao crescimento populacional, de 1,3% ao ano, enquanto o emprego formal deve crescer este ano 3,5%. Ele prevê uma alta do PIB de 1,9% este ano.

Brasil deve voltar a ser lanterna na América do Sul

Para economistas, a culpa pela anemia do PIB brasileiro não pode ser integralmente creditada à crise global. O Brasil está se saindo pior que muitos países, o que seria indicativo de problemas estruturais internos. O país deve estar em 2012, pelo segundo ano seguido, na lanterna do crescimento econômico na América do Sul — excluindo o Paraguai, que vive um momento de forte turbulência política. O Brasil deverá, novamente, perder em desempenho para a média da economia global e pode crescer menos até que os Estados Unidos.

— Isso é um sinal de um problema estrutural. Porque países como Colômbia, Peru e Chile vão crescer entre 4% e 5% neste ano e nós não? — indaga o professor Armando Castelar, da FGV, para quem isso demonstra que o Brasil precisa enfrentar problemas estruturais, como a baixa competitividade, fazer reformas e incentivar o investimento.

Alex Agostini, da Austin Rating, lembra que essa situação deve levar o país a um fraco crescimento de PIB per capita, uma vez que a população se expande cerca de 1,1% ao ano. Além disso, o país deve perder a posição de sexta maior economia do mundo, conquistada no ano passado. O Reino Unido deve voltar a ultrapassar o PIB brasileiro, em dólares:

— Aqui o maior problema que ocorre é a cotação do real, pois na comparação internacional o PIB é medido em dólares. Mas se o país crescesse mais ficaria mais fácil defender esta posição — afirmou o economista, que espera um PIB brasileiro em 2011 de US$ 2,315 trilhões, US$ 120 bilhões a menos que o britânico.

Ele, contudo, cita alguns “benefícios colaterais” desta crise, como a redução dos juros.

Desempenho do governo Dilma fica abaixo da média

Além disso, o PIB baixo deve fazer que o governo Dilma tenha uma das menores taxas de crescimento das últimas décadas. O professor Reinaldo Gonçalves, da UFRJ, diz que a situação econômica não é confortável:

— Após crescer 2,7% em 2011 e se chegar a 2% este ano, a média fica em 2,37% ao ano. Isso a coloca em 20º lugar entre os 26 presidentes do país, abaixo da média dos dois primeiros anos de Lula, FH, Itamar e Sarney.

O professor conta que, para Dilma repetir a média de 3,5% do primeiro mandato de Lula, o país precisaria crescer 4,6% ao ano em 2013 e 2014. E para chegar à média de crescimento da República, de 4,5%, o desafio é ainda maior: crescer em média 6,7% nos próximos dois anos.

Mas nem todos estão pessimistas. Cláudio Hamilton, diretor-adjunto da Diretoria de Estudos de Políticas Macroeconômica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vê espaço para forte reação do PIB:

— A criação de emprego continua forte e há espaço para incentivar consumo com expansão do crédito. Grande parte das famílias começa reduzir suas dívidas.
Fonte: O Globo