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Menos 440 mil empregos no país

25 de junho de 2012

Estudo mostra que criação de vagas se desacelera cada vez mais devido à crise

A crise internacional e a desaceleração da economia brasileira já afetam o mercado de trabalho. Embora os dados oficiais do governo apontem a criação de 737,8 mil empregos com carteira assinada no ano, uma análise mais aprofundada desses números revela que alguns setores importantes, como a agropecuária e a indústria, registram perda líquida crescente de vagas. No mês passado, já descontados fatores sazonais, a geração líquida de empregos no país foi de 52 mil postos (sem o ajuste, o número foi de 139.679), abaixo dos 90,6 mil registrados em abril, destaca o Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depec) do Bradesco. O banco reduziu em 440 mil postos a estimativa de criação de empregos em 2012. Era de 1,7 milhão no primeiro trimestre e passou para 1,26 milhão.

O estudo do Depec, baseado no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, mostra que o comércio, setor que de fevereiro a abril exibia recuperação na geração de vagas, voltou a reduzir o ritmo em maio. E, no setor de serviços, a desaceleração cresceu.

A análise mostra que até a construção civil, que apresentou o maior dinamismo entre os segmentos do mercado de trabalho nos quatro primeiros meses do ano puxado por lançamentos imobiliários antes da crise, recuou em maio, seguindo os demais setores com queda nas contratações.

Segundo o levantamento — que desconta fatores sazonais como safra e contratações atípicas — a criação de postos na indústria saiu de uma média mensal de 43,5 mil em 2010 para um resultado negativo de 1,4 mil entre abril e maio deste ano. O ritmo lento da economia afetou as contratações em cinco setores da indústria, que fechou postos de trabalho nas áreas de metalurgia, materiais de transporte, têxteis, calçados, alimentos e bebidas.

Até setor de serviços vem perdendo vagas

Na agropecuária, o quadro é preocupante, pois a média de desligamentos subiu de 2,4 mil em 2010 para 12,9 mil entre abril e maio deste ano. No comércio, a média de empregos criados em 2010 foi de 43,1 mil. Já nos primeiros dois meses do segundo trimestre caiu para 22,7 mil.

Mesmo no setor de serviços, que costuma suportar melhor as crises, o saldo médio de vagas caiu de 72,2 mil em 2010 para 48,4 mil entre abril e maio. Embora os serviços tenham respondido por quase a metade dos postos de trabalho, alguns segmentos, sobretudo instituições financeiras, transportes e comunicação, ensino, administração e venda de imóveis (corretores), e técnicos vêm perdendo vagas nos últimos dois meses.

Para os analistas do Depec, uma retomada do emprego só ocorrerá em meados do terceiro trimestre, entre agosto e setembro, se confirmada a esperada aceleração do crescimento. O economista José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio, está menos otimista. Ele destacou que a indústria, que paga melhores salários, está há alguns meses reduzindo empregos:

— Parece-me pouco provável um retorno do emprego no segundo semestre, porque a economia vai crescer pouco, depois de ficar praticamente estagnada. E a criação dos postos de trabalho não será suficiente para forçar uma queda na taxa de desemprego.

Para o professor de Relações do Trabalho da USP, José Pastore, dificilmente o governo poderá comemorar resultados como em anos anteriores, porque os investimentos, que geram empregos, estão caindo.

— É preciso aguardar a reação da economia — disse Pastore, acrescentando que o recuo nos investimentos está ligado ao custo elevado dos empresários com o aumento real dos salários, sem contrapartida na produção, o que reduz a margem de lucro.

Os dados regionais da pesquisa revelam que as maiores oportunidades de trabalho estão concentradas na região Centro-Oeste, onde o nível do emprego vem crescendo desde janeiro. Nas demais, a geração de postos tem desacelerado, sendo o pior resultado registrado no Norte, que vive uma dinâmica fraca desde julho de 2009.

Morador de Brasília, Gustavo Moita, que trabalhava como auxiliar de escritório no ramo de pecuária em Redenção (PA), perdeu o emprego há um mês com três colegas. De volta à capital, quer tentar uma vaga na área imobiliária, mais promissora, segundo ele:

— Os pecuaristas do Pará estão reclamando que a situação está muito difícil, mesmo para quem exporta.

Elaine Cristina Luz, mãe de quatro filhos e separada, foi demitida de uma empresa de serviços gerais (limpeza e conservação), após quase oito anos de casa. A alegação foi corte de gastos, disse, ao pedir o seguro-desemprego:

— Não esperava ser dispensada depois de sete anos e meio na empresa. Mais seis funcionários também foram demitidos de uma única vez.

Para analistas, as medidas do governo, como corte de juros, aumento de crédito e consumo ajudam, mas são insuficientes. O Caged mostrará saldo de vagas, mas cada vez menor, estimam. Não é um cenário de recessão, mas de crescimento menor, disse Camargo.

Fonte: O Globo