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A tropa da intimidação

24 de julho de 2012

Falta pouco mais de uma semana para o mensalão começar a ser julgado pelo STF. Episódios recentes têm mostrado como os acusados do maior escândalo de corrupção da história política do país estão se movimentando para salvar suas peles. Assim como fizeram para se perpetuar no poder, eles estão dispostos a tudo.

Um dos lances mais ousados da investida para tentar reescrever a história foi a decisão tomada no início do mês pelo TCU – mas só revelada no fim da semana passada por O Estado de S.Paulo – considerando regular contrato firmado em 2003 pela agência de publicidade de Marcos Valério, a DNA, e o Banco do Brasil que serviu para irrigar o “valerioduto”.

Numa estranha lógica, a relatora, ministra Ana Arraes, argumentou que uma lei aprovada em 2010, com novas regras para a contratação de agências de publicidade pela administração pública, tornara legal a operação entre a empresa de Valério e o BB, envolvendo R$ 153 milhões e fechada nove anos atrás.

Contrariando parecer técnico do próprio TCU, os demais ministros acompanharam o voto de Arraes – não por coincidência, mãe do governador de Pernambuco, o socialista Eduardo Campos. Travestiram de legalidade o esquema de drenagem de verba pública montado por Valério para a compra de apoio de parlamentares pelo PT.

O que o TCU, bizarramente, agora considerou legal foi o desvio de gratificações pagas por veículos de comunicação que a DNA deveria ter repassado ao BB, mas foram apropriados pela agência de Valério e de lá canalizados para o “valerioduto”, segundo denúncia da Procuradoria-Geral da República.

Mas a tropa de choque que quer transformar o mensalão em pizza – ou em “farsa”, no dizer de Luiz Inácio Lula da Silva – também está avançando por outras frentes. Nesta semana, a revista Veja revelou que Marcos Valério mantém canal direto com o staff do ex-presidente, numa relação cordial demais para quem estaria ameaçando chantagear o líder petista.

O que resta evidente é que há uma clara movimentação dos 38 réus e seus advogados para conduzir o julgamento que se inicia no próximo dia 2 de agosto a uma absolvição em massa. São movimentações subterrâneas, mas que também se somam a outras mais explícitas e constrangedoras.

Recorde-se a conclamação feita por José Dirceu à UNE há pouco mais de um mês. E junte-se, agora, ato marcado para hoje por militantes petistas de Brasília em defesa de Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT à época do mensalão, como mostra hoje oEstadão.

A ordem dada à tropa petista é pressionar o Supremo com urros, intimidações e arreganhos. Nada mais fazem do que seguir a senha dada por Lula antes de deixar a presidência da República, quando prometeu tentar transformar o mensalão numa “farsa” urdida pela oposição.

O difícil é contradizer o que o ex-presidente afirmou no auge da descoberta do escândalo, em 2005, em rede nacional de televisão: “Eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento. Não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos de pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas”. Ninguém se desculpa por uma suposta fraude cometida por adversários…

Como se ainda fosse necessário, o advogado de Roberto Jefferson, líder do PTB que primeiro admitiu a existência do esquema de corrupção no governo do PT, disse ao jornal O Globo que Lula “não só sabia [do mensalão] como ordenou toda essa lambança. Não é possível acusar os empregados e deixar o patrão de fora”.

Na reta final para o início do julgamento mais importante da história política recente do país, é essencial manter a vigilância sobre os movimentos dos réus e suas espúrias tentativas de constranger a Justiça. Como já demonstrou em mais de uma ocasião, a “sofisticada organização criminosa” que agiu no governo Lula dispõe-se a tudo para que seus delitos permaneçam impunes.

 

Fonte: ITV