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Sem cavalos de pau

16 de abril de 2012

Artigo do Instituto Teotônio Vilela (ITV)

O futuro presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres de Britto, ocupou os jornais no fim de semana para dar uma boa notícia ao país: no novo cargo, que assumirá na quinta-feira, fará todo o esforço para que o mensalão seja julgado até julho. Com a manifestação, ele se transformou, desde já, no inimigo n° 1 dos petistas.

Britto propõe um esforço concentrado na Corte para que o julgamento do crime, revelado há sete anos, não fique para as calendas. Se o caso não for julgado agora, uma série de vicissitudes o empurrará para fins de 2013. É tudo o que o PT mais quer.

Por isso, o esforço de Britto merece amplo apoio da sociedade: os que querem o bem do país devem se unir em torno da proposta do novo presidente do STF. Até porque não há dúvida de que, mesmo com todo o empenho, o caminho até a conclusão do julgamento será tortuoso e o PT fará tudo o que estiver a seu alcance – legal e ilegalmente – para dificultá-lo.

Como, aliás, já está fazendo. Segundo a Folha de S.Paulo, o ex-presidente Lula está liderando pressões sobre o STF para livrar petistas de um julgamento mais rigoroso e para “convencer o Supremo de que o julgamento não deve acontecer neste ano”. É o velho horror petista à Justiça.

Na altura em que está, o julgamento do mensalão só depende da revisão do processo pelo ministro Ricardo Lewandowski. Mas há, aí, um risco ao qual é preciso atenção: “Há 20 dias, em conversa com um amigo, o ministro antecipou que dificilmente concluirá seu trabalho antes do recesso da Justiça, em julho”, alerta Ricardo Noblat hoje n’O Globo.

Ora, não há razões para mais protelações. O trabalho pesado já foi concluído em dezembro passado pelo ministro Joaquim Barbosa, que transformou as mais de 50 mil páginas do processo numa síntese de 122 páginas. É este documento que cabe a Lewandowski agora revisar.

A demora em julgar os delitos da “organização criminosa” denunciada pela Procuradoria-Geral da República emite um mau sinal para a sociedade e acaba funcionando como uma espécie de salvo-conduto para mais falcatruas. Como as que envolvem o bicheiro Carlos Cachoeira e a banda podre do mundo político, com destaque para a farra que está se revelando em torno da construtora Delta e do governo do Distrito Federal.

Começam a se delinear em torno da empreiteira carioca as mesmas práticas verificadas no mensalão: milionários contratos da empresa com o setor público podem ter sido usados como fonte de recursos para financiar campanhas, como mostrou aFolha em suas edições de ontem e desta segunda-feira.

A Delta é uma espécie de “filha do PAC”. A empresa multiplicou-se à base de obras do programa lançado por Lula e ninado por Dilma Rousseff desde a época em que ela era ministra-chefe da Casa Civil. Desde o início da gestão petista, os recursos recebidos do governo federal pela Delta cresceram 2.000%.

A Delta pode ser o mais vistoso, mas não deve ser o único guichê que o PT espetou no PAC. É bem possível que as cifras bilionárias do programa que nunca se transformam em obras de verdade alimentem, na realidade, grossos desvios para bolsos partidários. Caberá à CPI do Cachoeira investigar.

Mas as empreiteiras não estão sozinhas nas urdiduras que serão agora apuradas no Congresso. Também o governo petista do Distrito Federal desponta envolvido até a alma com o submundo do crime, a ponto de uma central de espionagem ter sido montada dentro do Palácio dos Buritis – numa reedição dos velhos métodos totalitários que encantam corações e mentes do PT, como mostra a edição da revista Veja desta semana.

É o desnudamento destas aberrações que amedronta os petistas na CPI, a ponto de alguns próceres do partido já defenderem um “cavalo de pau” nas investigações, como faz Walter Pinheiro n’O Globo de hoje: segundo o jornal, o líder do PT no Senado “já admite até abortar a CPI”. O senador não fala sozinho. Ecoa as angústias da presidente da República, que, na sexta-feira, passou cerca de três horas com Lula em São Paulo para tentar achar meios de frear a CPI.

A disposição de Carlos Ayres de Britto pelo término da apuração do mensalão e o ímpeto da CPI pelo desvelamento da teia de interesses escusos montada pelo bicheiro Carlos Cachoeira no mundo político são manifestações de quem quer um Brasil mais limpo. Quem estiver contra isso tem dois interesses claros: jogar toda a sujeira para debaixo do tapete e, principalmente, preservar ativos os drenos de recursos públicos que financiam a corrupção.

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