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O desafio da competitividade

9 de outubro de 2013

O ranking divulgado anualmente pelo Fórum Econômico Mundial colocou o Brasil em má situação: caímos oito posições em relação à lista de 2012. Mas o país saiu-se especialmente mal nos quesitos relativos à qualidade da infraestrutura viária: em todos estamos hoje pior do que estávamos em 2010. Os problemas se agravam porque os investimentos públicos não deslancham e o programa de concessões, que deveria estar decolando a esta altura, teve que ser todo revisto, uma vez que as condições oferecidas pelo governo não foram aceitas pelos investidores. Outro aspecto que compromete nosso desempenho é o isolamento em relação ao resto do mundo.

 

O Brasil vive hoje um sério problema de competitividade. O país tem ficado para trás na corrida pelo desenvolvimento, superado por economias que optaram por caminhos menos tortuosos, mais amigáveis aos investimentos – principalmente privados – e mais adequados aos tempos de inovação que o mundo vive. A trilha percorrida pelo Brasil nos últimos anos é justamente o contrário disso: intervenção excessiva do Estado, falta de clareza de regras, pouco incentivo à pesquisa, isolamento das cadeias globais e um ambiente de negócios hostil ao empreendedorismo.

Neste mês, o Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) publicou o ranking que costuma servir de baliza para a análise do estado atual da competitividade em todo o mundo. Composto por 148 países, colocou o Brasil em uma nada honrosa 56ª colocação. Se o posto em si já não é nenhum motivo de orgulho, a dinâmica brasileira é pior ainda: caímos oito posições em relação à edição do ano passado, sendo ultrapassados por nações como México, Costa Rica e África do Sul.

Em alguns itens, a situação brasileira é especialmente ruim. É o caso dos indicadores com os quais o WEF afere as condições de infraestrutura de cada país. Na avaliação da qualidade geral da infraestrutura, o Brasil situa-se em 114° lugar, tendo caído 30 posições desde 2010, ou seja, desde o início do governo da presidente Dilma Rousseff. Neste particular, estamos abaixo de nações como Etiópia, Bolívia e Suriname, para citar apenas alguns. Parece até difícil de acreditar, mas é verdade.

A explicação está na péssima qualidade de cada um dos modais que compõem nossa matriz de logística: o Brasil consegue ficar quase sempre entre os piores do ranking. A situação mais crítica é a do nosso sistema portuário, classificado apenas como o 131° entre 148 países. A infraestrutura aeroportuária situa-se no 123° lugar e a rodoviária, em 120°. A qualidade das nossas ferrovias é apenas um pouquinho melhor, aparecendo na 103ª posição. Em todos estes casos, sem exceção, o país piorou desde 2010.

Burocracia

Não é difícil compreender por que as condições de nossa infraestrutura vêm piorando tanto. Os investimentos públicos não acontecem e os privados não conseguem vencer a burocracia, a falta de clareza e as indefinições presentes, entre outras, nas regras de concessão de obras de logística. Dos R$ 955 bilhões previstos para serem aplicados no âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento entre 2011 e 2014, somente 13% foram gastos até hoje, segundo o Siafi. Com isso, o país tornou-se um imenso cemitério de obras inacabadas.

Já o Programa Integrado de Logística – que prevê R$ 210 bilhões em investimentos em estradas, ferrovias, aeroportos e portos – deveria estar decolando nesta altura, mas, depois de mais de um ano sendo preparado, teve que ser todo reestruturado, uma vez que as condições oferecidas pelo governo petista não foram bem aceitas pelos investidores. Regras mirabolantes, cálculos malfeitos e uma canhestra tentativa de tabelar o lucro inviabilizaram boa parte dos leilões de rodovias e provavelmente todas as privatizações previstas para o setor ferroviário.

A má regulação de mercado é, aliás, um dos aspectos do país mais mal avaliados pelo Fórum Econômico Mundial: somos apenas o 147° do ranking, ou seja, o penúltimo no mundo. Junte-se a isso a tributação excessiva – que pesa negativamente tanto sobre os incentivos para investir (140ª posição na lista) quanto para trabalhar (138ª) – e é possível perceber com clareza o quanto o Brasil precisa avançar para que possa retomar o caminho do aumento da competitividade.

Há no ranking do WEF muitos outros aspectos nos quais o país também não se sai bem: em qualidade da educação primária, por exemplo, é o 129° e em qualidade do ensino de matemática e ciências, o 136°. Na realidade, na lista deste ano o Brasil perdeu posições em 11 dos 12 macrotópicos analisados no levantamento, composto por estatísticas e pesquisas de opinião realizadas junto a líderes empresariais e políticos de todo o mundo. Só não caímos no item “tamanho de mercado”.

Economia fechada

Uma das principais razões para que o Brasil esteja ficando para trás na corrida pela competitividade é o isolamento que vem adotando em relação ao resto do mundo. Com uma economia ainda muito fechada para os padrões globais, ficamos distantes da fronteira de inovação e produtividade das demais nações.

Nossas empresas perdem condições de concorrer no mercado externo, o país gera menos divisas e o parque produtivo tende a ficar obsoleto, sem condições de competir.

Entre todas as economias analisadas pelo WEF, o Brasil é a que tem o menor percentual de importações em proporção do PIB: 13%. Para se ter noção, na China este índice chega a 25% do PIB e no Chile e no México, a 35%. Nossas tarifas médias de comércio exterior também estão entre as 20 mais elevadas do mundo (em torno de 11%) e os procedimentos alfandegários exigidos para nossas operações de comércio exterior figuram entre os dez piores.

A consequência disto tudo é que o Brasil tornou-se um país onde é muito caro produzir. Desta forma, nossos produtos perdem mercado, as empresas deixam de criar mais e melhores oportunidades de emprego aqui dentro e os brasileiros vêm-se privados de poder consumir bens e serviços que, no mundo afora, são muito mais acessíveis e de melhor qualidade. A perda de competitividade afeta, portanto, não apenas as condições econômicas, mas, sobretudo, a qualidade de vida das pessoas.

É possível – mais que isso, é necessário – romper a atual situação. A saída está em, primeiro, oxigenar mais a economia, abrindo espaço maior para o setor privado e afastando o Estado de funções que ele não desempenha bem, como é o caso notório dos investimentos em infraestrutura. Também é imperativo que o país se insira mais nas cadeias produtivas que estão se formando ao redor do mundo e das quais, hoje, estamos alijados por opção própria. Recuperar nossa produtividade e ganhar mais competitividade é passo essencial para que o Brasil retome o rumo do desenvolvimento sustentável, do qual, infelizmente, se afastou nos últimos anos.

 

Fonte: ITV