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Espanando a poeira

2 de agosto de 2011

Demitido há quase um mês, o diretor-geral do Dnit demitiu-se ontem do cargo. A frase pode parecer contraditória, mas foi exatamente isso o que aconteceu: Luiz Antonio Pagot oficializou nesta segunda-feira seu desligamento do governo por moto próprio, depois de ter sido defenestrado no início de julho por ordem de ninguém menos que a presidente da República. Qual a seriedade de uma “faxina” como esta? Pagot saiu do órgão que concentra as maiores falcatruas da Esplanada com pompa e circunstância, num quase comício: auditório lotado, discurso inflamado e a entrega de uma carta de demissão lacrada endereçada à presidente. Mas a sua mise-en-scène completa-se com um pacto de silêncio sobre o que realmente interessa: quem operava a central de corrupção do caixa do Dnit, que só neste ano tem R$ 13 bilhões para gastar? É bem provável que esta pergunta continue sem resposta. A disposição do governo petista para investigar é de mentirinha. Já a de punir só se manifesta em reação à imprensa. Os aliados não precisam temer, portanto, as ameaças para inglês que Dilma Rousseff fez nos últimos dias, incluindo a de que exigirá “ficha limpa” dos novos indicados. Tudo mudará para permanecer exatamente como sempre esteve. No Dnit mantêm-se intocadas as estruturas na maioria dos estados. Mostrou a Folha de S.Paulo que pelo menos 12 das 23 superintendências regionais são objeto de inquéritos do Ministério Público ou da Polícia Federal. É uma verdadeira farra, que inclui até conserto de carro de amante de servidor, além de repasses ilegais de recursos a empresas ligadas aos padrinhos políticos dos superintendentes. É evidente que a disposição de Dilma para limpar a sujeira que há no Executivo possui claros limites. Ministérios controlados por PMDB, PDT, PP e PC do B serão “poupados” da faxina política, informou O Globo. Já o PT é intocável. Pensando bem, em vista do tamanho desses partidos, praticamente todo o mundo já está absolvido por antecipação. A “faxina” não passa, digamos, de espanar a poeirinha que cobre os móveis… “Não basta afastar pessoas, se, como nos Transportes, a administração criou um método de corrupção. As capitanias hereditárias do PMDB no setor elétrico, o sultanato do PDT no Trabalho, o feudo do PCdoB nos Esportes e o bunker ideológico-financista de ramificações do PT e organizações ditas sociais no Ministério do Desenvolvimento Agrário e no Incra parecem desafios acima do poder e fora do alcance da presidente”, critica O Globo hoje em editorial. Não por acaso, e bem de acordo com o modus operandi petista, o governo não tomou nenhuma providência em mais um escândalo cabeludo com começo, meio e fim divulgado no fim de semana. Com vídeo e tudo, a revista Época mostrou que assessores da Agência Nacional de Petróleo (ANP) cobravam propina para fazer processos de empresas privadas saírem do lugar. Não surpreende que a ANP, totalmente aparelhada pelo PC do B, tenha se tornado um entrave ao crescimento do setor no país nos últimos anos. Mais alguns casos: na Valec, o TCU descobriu um rombo (mais um) de R$ 420 milhões em contratos superfaturados nas ferrovias Norte-Sul e Oeste-Leste, ambas obras do PAC. Já a bilionária transposição do Rio São Francisco também sofre com a cobrança de aditivos, como revelou o Valor Econômico, e está praticamente parada. Enquanto isso, seu custo saltou dos iniciais R$ 5 bilhões para R$ 7 bilhões, ou módicos 40% a mais. É preciso dissipar a nuvem de poeira que o governo tenta soprar sobre a realidade: o que mais há hoje no governo de Dilma Rousseff é irregularidade para ser investigada. Se a sociedade não se mantiver vigilante, vai tudo para o esquecimento. O que os petistas mais querem é que a saída de Pagot represente um ponto final nas incômodas denúncias de corrupção que assolam a administração federal nos últimos meses. Para o governo, o que realmente interessa é tirar o assunto da pauta dos jornais e esconder os escândalos da opinião pública. Mas, como a limpeza é de mentirinha, a sujeira vai só mudar de endereço, suspensa no irrespirável ar de Brasília. Fonte: Carta de mobilização e formação política nº 284.