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Com a inflação não se brinca – Análise do ITV

17 de abril de 2013

Síntese: O Brasil tem convivido perigosamente com a inflação. Em 2012, pelo terceiro ano consecutivo, os preços subiram acima da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional. Além de uma inflação alta, o crescimento da nossa economia tem sido baixo.

Com isso, a situação brasileira vem destoando do resto do mundo e dos países latinoamericanos em particular, que estão crescendo com os preços sob controle. O problema afeta especialmente as famílias mais pobres, já que alimentos e serviços têm subido mais do que o índice geral. Só com muitas manobras e artificialismos, a gestão petista tem conseguido evitar que a situação saia completamente do controle.

Os brasileiros voltaram a ser assombrados por um personagem que imaginavam extinto: o dragão da inflação. O país vem assistindo os preços escalarem sem que o governo petista tome atitudes à altura do que a gravidade da situação exige. Com risco de descontrole, o jeito tem sido lançar mão de manobras de todos os tipos, postergar reajustes de tarifas e até apelar para a ajuda de governos estaduais e municipais. Quem mais perde com a corrosão da moeda são os mais pobres.

Em 2012, pelo terceiro ano consecutivo, a inflação brasileira ultrapassou a meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). O IPCA, índice oficial usado para balizar o regime no país, fechou o ano em 5,84%, ante meta de 4,5%.

Desde que o PT chegou ao poder, em apenas três ocasiões a inflação não superou o alvo: em 2006, 2007 e 2009. Isto a despeito de, desde 2005, a meta anual vir sendo mantida em 4,5%, patamar considerado alto por quaisquer parâmetros internacionais – em 2003, foi de 4% e em 2004, 5,5%.

O mais preocupante é que a inflação brasileira foi muito elevada num ano de crescimento econômico medíocre. A expansão do PIB, cujo número oficial será conhecido apenas no início de março, não deve ter ultrapassado 1% em 2012. O Brasil tornou-se, assim, uma jabuticaba no mundo: um lugar onde os preços sobem muito mesmo quando a economia quase não cresce.

2012 foi o quinto ano seguido em que a inflação brasileira ficou acima da média mundial. Países vizinhos que também adotam o regime de metas tiveram resultados muito melhores que o do Brasil, com taxas de crescimento do PIB muito mais altas do que a nossa. Os preços subiram, em média, 1,5% no Chile, 2,4% na Colômbia, 2,6% no Peru e 3,6% no México no ano passado. Ao mesmo tempo, a economia destes países deve ter avançado 5,5%, 3,5%, 6% e 4%, respectivamente.

Mais pobres sofrem mais

Não há perspectiva à vista de que a inflação brasileira venha respeitar a meta do CMN neste ou no próximo ano. Tanto para 2013 quanto para 2014, a expectativa é de que o IPCA fique, no mínimo, em 5,5%, segundo os levantamentos semanais feitos pelo Banco Central junto a cerca de uma centena de analistas de mercado. Significa dizer que os formadores de preços não creem que o governo da presidente Dilma Rousseff conseguirá domar o dragão. Se isso se confirmar, ela terá perdido a batalha para a inflação em todos os quatro anos de seu mandato.

Nos próximos meses, a inflação anualizada deve continuar subindo, com possibilidade de até romper o limite superior da meta, de 6,5%. Refresco, só no segundo semestre, se vier, quando os índices gerais deverão ser beneficiados pela possível diminuição do ritmo de alta dos preços dos alimentos – que subiram, em média, praticamente o dobro da inflação no ano passado, isto é, cerca de 10%.

Este é, aliás, um dos aspectos mais perversos da inflação: ela é mais intensa nos bens de primeira necessidade. Desta forma, afeta, principalmente, o orçamento das famílias mais pobres. Em 2012, o Dieese encontrou alta de até 17% – caso de Fortaleza – na cesta básica, e em dez das 17 capitais pesquisadas os aumentos ultrapassaram 10%. Os preços dos serviços também vêm há tempos subindo acima de 8% anuais.

Manobras e artificialismo

A inflação só não está mais alta no país em função de manobras do governo federal para remanejar reajustes e postergar aumentos. A mais evidente delas é a que afeta a gasolina e o óleo diesel, que ainda acumulam enorme defasagem em relação aos preços que a Petrobras paga por eles no exterior: mesmo com o aumento autorizado no fim de janeiro, a diferença ronda a casa dos 12%.

O reajuste dos combustíveis limitou-se a apenas metade do que a Petrobras considera necessário para fazer frente a seu plano de investimentos e será insuficiente para evitar que a estatal continue a registrar prejuízos mensais bilionários. Mas foi o máximo que o governo conseguiu praticar aproveitando a janela aberta com a redução das tarifas de energia – no cômputo global, um praticamente anulará a outra.

Além disso, Brasília teve que apelar para a prefeitura e o governo do estado de São Paulo para postergar reajustes nas passagens de ônibus e metrô, que normalmente ocorrem em janeiro. Também o câmbio passou a ser usado para segurar a inflação no país.

Tais manobras lembram o regime de preços administrados que vigorou no Brasil na década de 1980. O resultado é conhecido: sucateamento das empresas estatais, que não tinham seus produtos e serviços adequadamente remunerados, e explosão da inflação quando o modelo, incapaz de continuar represando a evolução geral dos preços, entrou em parafuso.

Visão equivocada

Nos últimos cinco anos, a inflação acumulada no país – quase 32% – superou em 12 pontos percentuais a média verificada nos 15 principais parceiros comerciais brasileiros, segundo o banco Credit Suisse. Ou seja, o Brasil está na contramão do resto do mundo, perdendo, perigosamente, ainda mais competitividade. Trata-se de uma das manifestações mais visíveis da política econômica desequilibrada que a gestão petista vem pondo em prática.

Com os instrumentos de combate se exaurindo, agora até o Banco Central admite que não tem muito mais o que fazer para segurar a inflação. Sua arma, os juros básicos, bateu no piso e não tem muito mais como cair. Na análise do BC, o problema está na insuficiente oferta de bens e serviços – gargalos como a logística cara e a falta de mão de obra qualificada – e nos gastos turbinados do governo federal, que funcionam como combustível para a fogueira inflacionária.

O comportamento recente dos preços no país tem relação direta com a visão que as autoridades petistas têm do problema. Vigora no governo federal a crença de que um pouco mais de inflação é aceitável como forma de se obter mais crescimento econômico. Trata-se de uma teoria furada, do que o desempenho recente do PIB nacional – a média do último biênio é a mais baixa em 20 anos – é a melhor prova. A estabilidade da moeda é uma das maiores conquistas da nossa história. Preservá-la é um valor do qual a sociedade brasileira não abre mão.

Fonte: ITV