Você está em:
IMPRIMIR

“Mulher não é propriedade”, artigo de Cristina Afonso Lopes

20 de março de 2013

Nas últimas semanas, o Brasil assistiu ao julgamento de dois crimes que tiraram a vida de mulheres. O primeiro trata-se do sequestro, assassinato e ocultação do corpo de Elisa Samúdio. A jovem, que sonhou com um mundo de fama e dinheiro, foi morta para que deixasse de incomodar o goleiro Bruno, pai do seu filho, pela pensão que tinha direito.

Do outro lado, a morte de Mércia Nakashima, supostamente por seu ex-namorado, inconformado com o fim do relacionamento de ambos.

Os dois casos são a dura face da violência contra à mulher. Segundo o Mapa da Violência, publicado em 2012, pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela) e pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), mais de 92 mil mulheres foram assassinadas no país entre os anos de 1980 e 2010, tendo quase metade dessas mortes se concentrado apenas na última década.

Em 2011, o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, registrou 70.270 atendimentos a mulheres vítimas da violência. A maioria delas tinha entre 15 e 29 anos e foi agredida por maridos ou namorados.

Os dois casos também demonstram como, em pleno século 21, a mulher ainda é tratada como propriedade por seu maridos, namorados ou ex-pares. A diferença em relação a muitos outros casos é que esses crimes foram levados a júri popular.

O goleiro Bruno, até sentar-se no banco de réus, negou a participação na morte de Elisa, pois contava com a certeza da impunidade. Mudou de ideia apenas no julgamento sob a perspectiva de uma pena mais leve, o que de fato ocorreu. Apesar de condenado a 22 anos de prisão, em três anos poderá cumprir a pena em liberdade. Por outro lado, seu filho com Elisa Samúdio jamais verá a mãe novamente, ganhará seus beijos e seu amor materno.

O acusado de matar Mercia Nakashima, o ex-policial militar Mizael Bispo de Souza também nega a autoria do crime. Mas as cinco mulheres e dois homens do júri decidiram por sua culpa da acusação de ter atirado no rosto da ex-namorada e a jogado para a morte dentro de uma represa no interior de São Paulo. A pena foi de 20 anos, mas a exemplo de Bruno, pode ser reduzida.

Familiares e amigos de Mércia relatam que Bispo era um homem ciumento, possessivo e violento. Por esse motivo, a advogada teria terminado o namoro. Infelizmente foi tarde demais para Mércia, que tinha apenas 28 anos.

Mas, para outras Mércias espalhadas pelo Brasil fica o alerta de que comportamento ciumento e possessivo não é demonstração de amor. E como bem diz a campanha internacional de combate à violência contra as mulheres do Banco Mundial: homem de verdade não bate em mulher.