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Por que ficamos para trás

17 de setembro de 2019

Autor: Marcus Pestana

O que não deu certo? Quais as razões para o Brasil ter perdido a sua trajetória de desenvolvimento? A reflexão essencial foi lançada pelo acadêmico Edmar Bacha, um dos maiores economistas brasileiros, em sua conferência na Academia Brasileira de Letras. É intrigante mergulhar nessa discussão, já que o país foi conhecido como uma máquina de crescimento do pós-guerra até a crise de 1980, com maiores taxas médias anuais de 7,5%.

E não se trata de nenhum “complexo de vira-lata” ou pessimismo crônico. Os dados falam por si. Ao se comparar o PIB per capita de Brasil, Chile, China e Coreia do Sul, revela-se um triste retrato: o Brasil, que em 1980 ocupava a melhor posição, amarga hoje o último lugar. Em relação à Coreia do Sul, que tinha no início da década de 70 renda per capita menor que a nossa, fechou 2018 com um indicador 2,5 vezes superior ao de nosso país.

Cabe registrar que apenas 130 anos atrás tínhamos ainda relações escravistas de produção. De 1888 a 1930, predominou o modelo primário exportador. Nossa industrialização tardia, entre 1930 e 1980, foi em ritmo acelerado e “marcha forçada”, baseada em alto grau de intervenção estatal e fechamento da economia por meio do processo de substituição de importações. De 1980 a 1995, vivemos um período turbulento de instabilidade com a hiperinflação batendo às portas e estrangulamentos no balanço de pagamentos. O Plano Real desencadeou um novo ciclo, mas as conquistas do período foram colocadas em risco pelos equívocos do governo Dilma, resultando em recessão, desemprego e crise de confiança.

O professor Edmar Bacha se deteve na análise de algumas das causas dessa trajetória. A primeira é o baixíssimo coeficiente de abertura ao comércio exterior. A mediana de 12 países selecionados que romperam as amarras da pobreza revela um nível de comércio exterior de 75% do PIB, enquanto no Brasil representa só 24% do PIB. Segundo Bacha, para se ter crescimento e incremento na produtividade, as empresas precisam de tecnologia, escala, especialização e concorrência, coisas que só uma economia aberta pode garantir.

Outro aspecto que explica nosso crescimento raquítico é a combinação entre baixa poupança, aumento dos preços dos bens de capital e produtividade insatisfatória. Isso tem a ver com o fechamento da economia, mas também com nossos problemas na educação e no processo de inovação científico-tecnológico.

Não foge também do alcance de Edmar Bacha a dramática situação fiscal que impede o governo de promover a agenda social – educação e cultura, saneamento e saúde, habitação, mobilidade urbana, segurança –, essencial para que as pessoas se tornem mais produtivas e também para superar os gargalos da situação desastrosa de nossa infraestrutura. Para recuperar a saúde financeira do setor público, só mudando o perfil da despesa, atacando os gastos excessivos com Previdência e pessoal e atraindo capitais privados para parcerias público-privadas, privatizações e concessões. Some-se a isso o intervencionismo estatal – controle de preços, quebra de contratos, regulação exagerada – e um ambiente institucional instável e hostil aos investimentos.

Edmar Bacha concluiu: “A busca da República ainda incompleta deve ser simultaneamente liberal e progressista”.

(*) Por Marcus Pestana, ex-deputado federal por Minas Gerais e atual secretário geral do PSDB

Artigo publicado originalmente na edição do dia 07 de setembro de 2019 do jornal O Tempo