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Novo delator da Operação Acrônimo confessa que entregou propina de R$ 3 milhões para operador de Pimentel

1 de junho de 2016

LIGAÇÕES PERIGOSAS: o então ministro Fernando Pimentel foi ciceroneado por Carlos Alberto de Oliveira Andrade, o CAOA, durante visita à montadora suspeita de lhe pagar propina

LIGAÇÕES PERIGOSAS: o então ministro Fernando Pimentel foi ciceroneado por Carlos Alberto de Oliveira Andrade, o CAOA, durante visita à montadora suspeita de lhe pagar propina

O cerco contra o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, está se fechando cada vez mais. Reportagem publicada no final da tarde desta quarta-feira (01/06) no site do jornal O ESTADO DE S. PAULO revelou trechos da delação premiada do contador Roberto Trombeta, responsável pela abertura de offshores para a montadora CAOA, na qual ela confessa que entregou propina de R$ 3 milhões em dinheiro vivo para Benedito de Oliveira Neto, o Bené, acusado de ter operado um grande esquema de caixa dois para o petista na campanha eleitoral de 2014.  Pior: de acordo com Trombeta, Fernando Pimentel estava presente em uma reunião realizada na casa do sócio-controlador da CAOA, o empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade.

“Chamou a atenção do declarante Roberto Trombeta haver avistado no interior daquela residência a pessoa de Fernando Pimentel, então candidato ao Governo de Minas Gerais, não mantendo contato com o mesmo além do visual”, contou Trombeta aos procuradores da República, em Curitiba, nos autos da Lava Jato.

Ainda segundo o delator, o pagamento da propina foi feito em dinheiro feito entre agosto e setembro de 2014, na reta final da campanha de Pimentel ao governo de Minas.

Segundo Bené, propina da CAOA para Pimentel somou R$ 20 milhões

O depoimento do contador Roberto Trombeta corrobora com as afirmações feitas pelo empresário Benedito Rodrigues de Oliveira Neto, o Bené, que também firmou acorde de colaboração premiada no âmbito da Operação Acrônimo.

Trechos da delação premiada de Bené divulgados na semana passada em outra reportagem do mesmo jornal O ESTADO DE S. PAULO mostraram que, ao todo, a CAOA pagou R$ 20 milhões em propina ao petista Fernando Pimentel. “Os pagamentos, segundo Bené, ocorreram entre 2013 e 2014, ano em que o petista deixou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior para candidatar-se ao governo de Minas. Dos R$ 20 milhões, afirmou o delator, R$ 7 milhões foram repassados diretamente a Pimentel no exterior restante teria sido usado na campanha”, afirma a matéria.

Bené está preso em Brasília, desde 15 de abril, apontado como o ‘operador’ do esquema de corrupção chefiado por Fernando Pimentel. Em 06 de maio, a Procuradoria Geral da República denunciou o governador mineiro pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Se o Superior Tribunal de Justiça (STJ) aceitar a denúncia, o petista Pimentel deverá ser afastado do cargo, uma sanção determinada pela Constituição Mineira para os governantes que respondem a processos pela prática de crimes comuns.

Confira as íntegras das matérias publicadas pelo jornal O ESTADO DE S. PAULO

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O contador Roberto Trombeta que abria offshores para a montadora disse em depoimento à Lava Jato ter visto o governador de Minas em encontro em que foi acertada a ‘contribuição’ repassada ao empresário Benedito Olivera, o Bené, preso na Operação Acrônimo

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O governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), denunciado na Operação Acrônimo. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Delator da Operação Lava Jato, o contador Roberto Trombeta afirmou aos procuradores da República que o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), estava na residência do dono do Grupo CAOA, numa reunião, em agosto de 2014, em que lhe foi solicitado a participação no repasse de R$ 3 milhões, em dinheiro vivo, para o empresário Benedito Rodrigues de Oliveira Neto, dono da Gráfica Brasil.

“Chamou a atenção do declarante Roberto Trombeta haver avistado no interior daquela residência a pessoa de Fernando Pimentel, então candidato ao Governo de Minas Gerais, não mantendo contato com o mesmo além do visual”, contou Trombeta aos procuradores da República, em Curitiba, nos autos da Lava Jato.

Bené, como é conhecido o amigo de Pimentel, está preso desde abril, como operador de propinas do petista. Os dois foram denunciados na Operação Acrônimo pelo recebimento de valores ilícitos do Grupo CAOA. Foram identificados o repasse de R$ 2 milhões para empresas de Bené, que teriam o governador e sua campanha como beneficiários – valor esse também citado por Trombeta como um “repasse oficial”.

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Os R$ 3 milhões, que não teriam chegado a ser repassados integralmente, foram dados em dinheiro vivo na sede da CAOA, em Brasília, entre agosto e setembro de 2014, durante a campanha de governador – que tinha Bené como integrante. Sob risco de perder os benefícios de sua delação premiada na Lava Jato, como operador de propinas das empreiteiras OAS e UTC, Trombeta confessou em depoimento prestado no dia 29 de maio ter cuidado das offshores do Grupo CAOA, abertas para movimentar contas em outros países, e confirmou os repasses em Minas.

Repasse. Trombeta narrou três encontros com Bené e executivos da CAOA, entre julho e agosto de 2014, para tratar do repasse dos R$ 3 milhões ao amigo de Pimentel. Detalhou ainda as datas e as circunstâncias de entregas das notas na sede da empresa.

“Em reunião na casa do controlador do Grupo CAOA, Dr. Carlos Alberto Oliveira Andrade, convocada pelo presidente Sr. Maciel Neto, soube o declarante Roberto que a CAOA pagaria, diretamente ao senhor Benedito Rodrigues de Oliveira, a importância de R$ 3 milhões em dinheiro”, afirmou Trombeta. O encontro teria ocorrido em agosto de 2014. “Este pagamentos seriam feitos semanalmente na sede do Grupo CAOA.”

O primeiro encontro narrado pelo novo delator teria ocorrido em julho. “O declarante Roberto Trombeta foi chamado para uma reunião a pedido do presidente do Grupo Caoa, sr. Antonio Maciel Neto. Nesta reunião foi apresentado a Benedito Oliveira.” O delator diz que o executivo da CAOA “solicitou ajuda” para uma “demanda que posteriormente lhe seria explicada”.

O segundo encontro teria ocorrido em 6 de agosto no escritório de contabilidade de Trombeta, em São Paulo. “(Bené) pediu ajuda para que pudessem indicar alguém para fazer pagamentos à terceiros em seu nome”, relatou o delator.

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“Benedito não informou a razão destes pagamentos mas pelo que deixou transparecer, se tratada de compromissos políticos.”

Foi após esse encontro, que Trombeta diz ter ocorrido a reunião na casa do controlador da CAOA, em que ele diz ter visto Fernando Pimentel. O delator conta que por motivo de sigilo na empresa”, ele e seu sócio Rodrigo Morales foram incumbidos de destacar um funcionário de seu escritório de contabilidade para “retirar certa ‘encomenda’ no departamento financeiro e que a entregasse ao representante” indicado por Bené.

Os valores teriam sido repassados para um emissário de Bené, que ia na sede da CAOA, e pegava o dinheiro das mãos de um funcionário do escritório de Trombeta – que se ao local com essa única função.

“O funcionário dos declarantes foi ao departamento financeiro da empresa e procedeu da mesma maneira, recebendo envelope lacrado com a inscrição R$ 500 mil.” O primeiro repasse foi no dia 22 de agosto, quando Trombeta recebeu mensagem no celular enviada por Bené. “Pretendia Benedito Rodrigues comunicar que seu portador já estava na recepção da empresa CAOA.”

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Foram repassados R$ 2 milhões, dos R$ 3 milhões acertados na reunião. Segundo Trombeta foram quatro repasses nos dias 22 de agosto, 5, 19 e 25 de setembro. “O restante do valor acordado entre o presidente do Grupo CAOA Sr. Antonio Maciel Neto e o Sr. Benedito Oliveira não foram pagos em razão da prisão do Sr Bendito no dia 7 de outubro.”

Em outubro de 2014, Bené seria detido com R$ 116 mil em dinheiro vivo chegando no aeroporto de Brasília, em um jatinho particular. Ele acabou sendo liberado.

Acrônimo. O delator da Lava Jato confirmou os repasses que a CAOA fez – R$ 2,2 milhões, segundo ele – para Bené “de forma oficial”. A CAOA e seus executivos são alvos da Operação Acrônimo e chegaram a ser investigados na Operação Zelotes por pagamentos suspeitos em troca de benefícios no governo federal.

“Acredita que os valores primeiro mencionados (R$ 3 milhões) fora repassados a título de contribuição político, ao menos foi o que se deixou transparecer, vez que os representantes do Grupo CAOA não foram enfáticos, apenas falaram ‘é uma contribuição’.” As revelações de Trombeta na Lava Jato, como operador de repasses ilícitos da CAOA, vão ser compartilhadas com a Acrônimo.

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Trombeta e o sócio Morales corriam o risco de perder os benefícios da delação premiada homologada pelo juiz federal Sérgio Moro, no ano passado. Os procuradores da força-tarefa em Curitiba alegaram haver indícios de não cumprimento do acordo, com ocultação de informações e não cumprimento dos pagamentos de multas. A entrega de documentos, pagamentos de valores devidos afastaram o risco.

Um dos pontos que pesou no pedido de quebra de delação foi a descoberta, no início do ano, de que Trombeta operava pelo menos outras oito offshores não declaradas no acordo com a Lava jato – fato descoberto após as publicações do Panama Pappers, sobre empresas usadas para lavagem de dinheiro abertas pela panamenha Mossack Fonseca.

Bené já confessou que atuou em nome de Pimentel em delação premiada, no processo da Operação Acrônimo. Segundo ele, o Grupo Caoa teria feito ao todo o repasse de R$ 20 milhões para o governador, entre 2013 e 2014. Pelo menos R$ 7 milhões teria ido para contas no exterior do petista e o restante abastecido campanhas.

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Benedito Rodrigues, o Bené, preso na Operação Acrônimo, afirma que governador de Minas e ex-ministro do governo Dilma recebeu R$ 7 milhões no exterior

O empresário Benedito Rodrigues de Oliveira Neto, o Bené, afirmou em delação premiada que o Grupo CAOA pagou R$ 20 milhões ao governador de Minas Fernando Pimentel (PT). Os pagamentos, segundo Bené, ocorreram entre 2013 e 2014, ano em que o petista deixou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior para candidatar-se ao governo. Dos R$ 20 milhões, afirmou o delator, R$ 7 milhões foram repassados diretamente a Pimentel no exterior. O restante teria sido usado na campanha.

Bené está preso em Brasília, desde 15 de abril, apontado como o ‘operador’ de Pimentel. A ordem de prisão foi decretada pelo ministro Herman Benjamin, do Superior Tribunal de Justiça, relator da Operação Acrônimo na Corte. O empresário teria falsificado provas para tentar ‘blindar’ o governador.

Bené fez delação junto ao Ministério Público Federal. São vinte anexos, cada um correspondendo a uma suposta irregularidade envolvendo não apenas Pimentel, mas também outros políticos. Um anexo é denominado ‘Evento CAOA’.

Para os investigadores, o relato de Bené mostra que Pimentel teria transformado o Ministério numa ‘agência de negócios’. Alterava portarias para atender pleitos de segmentos empresariais desde que fizessem doações para sua campanha. Cobrava também para ele próprio, disse o delator.

Bené e o petista já foram denunciados criminalmente, no início de maio, pela Procuradoria da República. A Pimentel, a Procuradoria atribui corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Na mesma acusação foram incluídos outros seis investigados, entre eles o ex-ministro Mauro Borges – sucessor de Pimentel – e o empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade, dono da CAOA.

Nessa denúncia, a Procuradoria indica que Pimentel foi beneficiário de uma propina de R$ 2 milhões para favorecer a CAOA enquanto ministro – o petista ocupou o cargo de 2011 a 2014, no primeiro mandato de Dilma Rousseff. O caso, revelado pelo Estado, em outubro de 2015, foi investigado na Operação Acrônimo, autorizada pelo STJ.

Em sua delação, Bené afirmou aos investigadores que os R$ 20 milhões foram divididos em duas partes, acertadas na época em que Pimentel ainda ocupava a cadeira de ministro. Ele citou como envolvidos no esquema o empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade, dono da CAOA, e o presidente do grupo Antonio dos Santos Maciel.

Segundo o delator, os primeiros R$ 10 milhões foram transferidos quando o então ministro atendeu a um pedido do grupo e promoveu alteração no mix de modelos de veículos autorizados pelo Programa de Importação Inovar Auto. Segundo Bené a CAOA iria importar uma série de veículos, mas eles ’empacaram’ e a Pasta dirigida por Pimentel tinha que fazer ‘uma troca do mix de modelos’, o que acabou ocorrendo.