Você está em:
IMPRIMIR

“Misturar PSDB com PT é falsear a história”, afirma Bruno Araújo

14 de agosto de 2019

Em entrevista ao UOL, o presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo (PE), voltou a rejeitar recentes comparações entre tucanos e petistas feitas pelo ministro da Fazenda, Paulo Guedes. Segundo Araújo, misturar PSDB e PT é falsear a história. “Onde estava o ministro Paulo Guedes quando o PSDB era rotulado de neoliberal e o presidente Bolsonaro desfilava de mãos dadas com o PT votando contra a reforma da Previdência e contra o plano Real?”, questiona.

O presidente do PSDB afirmou que o partido será aliado do governo sempre que houver defesa de uma economia moderna, da liberdade econômica e do estímulo à livre iniciativa. Entretanto, haverá enfrentamento sempre que as atitudes do presidente gerarem um grau de preocupação de civilidade”.

“O PSDB vai ser oposição sim nas questões que envolverem posicionamentos autoritários, não civilizados e que não respeitem as instituições. O PSDB terá uma posição firme de oposição. Mas o governo não terá aliado maior do que o PSDB sempre que a pauta for de desenvolver a economia, gerar emprego e aumentar a renda da população”, disse, citando a participação do partido na aprovação da reforma da Previdência.

Nesse sentido, Bruno Araújo questiona ainda a falta de uma agenda do governo federal para a geração de empregos. “Se essa agenda for apresentada [ao Congresso] pelo governo, vai ter total apoio do PSDB. A nossa cobrança é para que ela seja apresentada porque o primeiro semestre do governo Bolsonaro ele perdeu o momento mais nobre do seu mandato, que era, além da Previdência, poder ter aprovado matérias extremamente relevantes”.

Leia trechos da entrevista ao jornalista Wellington Ramalhoso

Foto: Iwi Onodera/Uol

Com o sr. na presidência, que rumo o PSDB está tomando?

De ter clareza nas suas posições em relação aos temas da vida pública nacional. O PSDB vai continuar onde sempre esteve, trabalhando pelo respeito às instituições, apoiador da livre iniciativa, sempre tendo a compreensão de que o Estado é responsável e é instrumento para a redução de desigualdades sociais, de políticas públicas que diminuam desigualdades regionais e enfrentando os extremismos, seja mais à esquerda sejam atitudes anticivilizatórias, intolerância em qualquer outro campo.

Como está o processo de implantação do Código de Ética e da Comissão de Ética do partido?
A Comissão de Ética já existia. O Código de Ética é o primeiro que se tem notícias no hemisfério sul. Ele foi resultado de uma alteração na última convenção nacional do partido. Estamos cumprindo a parte burocrática de registro em cartório, como determina a lei dos partidos políticos, a anotação no Tribunal Superior Eleitoral.

O governador de São Paulo, João Doria, já disse que o PSDB precisa sair de cima do muro. No entanto, ele afirma agora que o PSDB não deve fazer oposição ao governo Bolsonaro, embora parlamentares tucanos sejam favoráveis a que o PSDB se coloque mais claramente como oposição. Tem aí um resquício de “ficar em cima do muro” nesse posicionamento do governador João Doria?
Não. Primeiro temos a compreensão de que os governadores por mais que tenham a sua opinião precisam sempre ter uma relação muito mais cuidadosa porque têm responsabilidade com milhões do estado que governam e é uma relação institucional sempre importante a se preservar.

Mas eu diria que o PSDB vai ser oposição sim nas questões que envolverem posicionamentos autoritários, não civilizados e que não respeitem as instituições. O PSDB terá uma posição firme de oposição. Mas o governo não terá aliado maior do que o PSDB sempre que a pauta for de desenvolver a economia, gerar emprego e aumentar a renda da população, a exemplo, apesar do governo, da reforma da Previdência, que teve um envolvimento especial do Congresso Nacional, liderado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e que teve no PSDB o principal protagonista no texto como relator da matérias nas duas casas, na Câmara e no Senado.

No que se refere à economia moderna, liberdade econômica, estímulo à livre iniciativa, o governo Bolsonaro vai ter talvez o mais importante aliado. E no que se refere a situações que geram um grau de preocupação de civilidade, vai ter um enfrentamento de oposição como poucos.

Quando o sr. fala sobre aspectos não civilizatórios do governo Bolsonaro, a que o sr. se refere exatamente?

Foto: Iwi Onodera/Uol

Expressões como rotular uma região com um nome pejorativo, utilizando de forma pejorativa um nome de estado [referência ao dia em que Bolsonaro chamou nordestinos de “paraíbas”], dizer como vai explicar ao presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) como o pai foi morto [referência a declarações sobre Fernando Santa Cruz, pai de Felipe Santa Cruz]. Atitudes como esta chocam o mundo civilizado e contra isso o PSDB sempre vai falar com muita firmeza.

O PSDB pretende agir contra atitudes do presidente Bolsonaro e decisões do governo que possam soar autoritárias?
Em relação a posições que são opiniões e soam como autoritárias ou intolerantes o que cabe ao PSDB é criar o contraponto e discordar. Se alguma passa da linha de opinião e entra numa fronteira de algo com um nível de preconceito previsto na legislação penal, aí não é só o PSDB. Aí há todos os instrumentos das instituições.

O sr. reagiu recentemente a declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, que atribuiu os problemas do país “aos 30 anos de social-democracia”, incluindo PT e PSDB neste período. O presidente Bolsonaro já deu outras declarações contrárias ao governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Com esse tipo de situação, não fica claro que o atual governo não tem interesse no apoio do PSDB?
Não estamos preocupados se o governo tem interesse ou não. A declaração do ministro Paulo Guedes, no mínimo, pode passar por algum recalque de diferença que teve com economistas do PSDB nas escolas econômicas, e os economistas do PSDB à época tendo concretizado seus nomes para a história com a configuração de planos que mudaram a vida do brasileiro como o plano Real.

Misturar PSDB com PT é falsear a história. Onde estava o ministro Paulo Guedes quando o PSDB era rotulado de neoliberal e o presidente Bolsonaro desfilava de mãos dadas com o PT votando contra a reforma da Previdência e contra o plano Real?

O sr. foi ministro das Cidades no governo Michel Temer (MDB), pasta extinta no governo Bolsonaro. O sr. concorda com a extinção da pasta?
O Ministério das Cidades, com suas atribuições, sendo fundido com outro ministério, é uma decisão meramente administrativa. O importante é saber se as políticas de habitação, de saneamento e mobilidade estão sendo entregues.

Há um abandono das políticas de habitação e mobilidade?

Foto: Iwi Onodera/UOL

Acho que é uma opção de um movimento econômico em relação a recursos do FGTS, que vão ter repercussão no financiamento na política habitacional para a população de baixa renda. O governo precisa definir quais serão as fontes que vão garantir de forma segura, no médio e no longo prazo, o acesso ao financiamento para a população mais pobre para poder ter a sua casa própria.

Vale falar que, apesar do governo Bolsonaro, nós temos aprovada a reforma da Previdência. A grande questão e a grande responsabilidade do governo Bolsonaro é o Brasil conhecer sua agenda macroeconômica para a geração de emprego.

Não conhecemos nesse momento nenhuma pauta legislativa, fora as que caminham há 30 anos, há 20 anos, como a reforma da Previdência que agora se consolida e a tributária que entra no radar, mas são macrorreformas. Qual é a agenda macro e microeconômica que vai ajudar a devolver empregos e gerar renda no país?

A reforma da Previdência resolve uma questão de despesa. Mas a pergunta é: qual é a agenda do governo federal apresentada ao Congresso Nacional com mudanças que geram emprego e renda no médio e no longo prazo sem nenhuma formação de bolha?

Se essa agenda for apresentada pelo governo, vai ter total apoio do PSDB. A nossa cobrança é para que ela seja apresentada porque o primeiro semestre do governo Bolsonaro ele perdeu o momento mais nobre do seu mandato, que era além da Previdência, poder ter aprovado matérias extremamente relevantes.

O governo cita a importância da medida provisória da liberdade econômica. Na sua opinião, ela não ajuda na geração de emprego?
Não vejo essa medida provisória como sendo catalisadora de geração de empregos. Do ponto de vista de geração de emprego, a medida mais relevante que vimos recentemente foi aprovada no governo Temer, que foi a reforma trabalhista. O país espera medidas com essa dimensão.

Fala-se muito que o PSDB está dividido entre os mais velhos, os cabeças brancas, e os mais jovens, os cabeças pretas. Que espaço há no partido para figuras mais experientes como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o senador José Serra e o ex-governador Geraldo Alckmin?
O presidente Fernando Henrique é uma grande referência. Agora precisa tratar com clareza: o presidente Fernando Henrique sublimou a questão do PSDB. O presidente Fernando Henrique fala com a liberdade de um sociólogo, com a liberdade de um intelectual. Obviamente, ele tem suas convicções de ordem política que em muito é a base do PSDB, mas a sua liberdade de pensamento transcende o PSDB. É uma liberdade de pensamento de um sociólogo, presidente da República duas vezes, e alguns momentos ela não coincide com posições do partido. E isso precisa ser compreendido. Quem tem essa formação, capacidade intelectual e a idade que tem tem liberdade para transcender posições político-partidárias. E o grau de experiência dos agentes nossos mais experientes continua contribuindo com o partido.

Agora o PSDB vive uma fase de renovação, apostando em jovens e mulheres. O PSDB está preparando e lançando nos próximos dias um processo de seleção dos jovens filiados ou que comunguem com as ideias da social-democracia para serem preparados, receberem formação política e com o compromisso de fundo partidário do PSDB para aqueles que quiserem assumir o protagonismo de disputar a eleição. Estamos fazendo o primeiro processo de seleção pública de um partido para dizer que vamos participar da formação política e viabilizar recurso de campanha para participar do projeto eleitoral em 2020.

Leia a íntegra da entrevista