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Entrevista do senador Aécio Neves na chegada do encontro com lideranças políticas do Rio Grande do Sul

11 de novembro de 2011

11-11-11 Entrevista Aécio Neves – Porto Alegre_site

Senador, no seminário do PSDB na segunda-feira, o ex-presidente Fernando Henrique sugeriu o slogan “yes, we care”. O que o senhor acha, deve usar na campanha de 2014?

Na verdade, o que o PSDB fez, e isso é muito positivo para o Brasil, foi reunir pessoas com disposição de pensar o futuro. A partir do momento em que o PT abdica de ter um projeto de país para se dedicar a apenas à manutenção do poder, e hoje a prioridade do PT é o projeto de poder, com quaisquer que sejam os aliados, a qualquer custo, sabe-se lá para que, porque não há nenhuma iniciativa estruturante desse governo, como não houve no governo passado, importante para o País, o PSDB assume sua responsabilidade, chama outros setores da sociedade, para iniciar um processo de discussão do futuro.

Na verdade, a agenda que está em curso no Brasil hoje é a agenda proposta pelo PSDB há quase 20 anos atrás. Que começa com o Plano Real, com a estabilidade econômica, passa pelas privatizações, pelo Proer, pelo início dos programas de transferência de renda, pela Lei de Responsabilidade Fiscal. No governo do PT não houve nenhuma inovação. Eles tiveram a responsabilidade de esquecer o discurso do presidente Lula que o levou a primeira vitória e incorporar, ou manter, a política macroeconômica do presidente Fernando Henrique, do PSDB, com câmbio flutuante, metas de inflação, superávit primário, e adensou os programas sociais. O Brasil precisa de um novo salto e o PSDB inicia essa discussão desse novo solto, dessa nova agenda com esse evento. Vamos fazer, inclusive, aqui no Sul, proximamente, no ano que vem outros eventos.

Mas, não fujo da sua pergunta. O que o presidente Fernando Henrique falou não foi, obviamente, a proposta de um slogan, só se ele tivesse abdicando de morar no Brasil e fazer campanha para o Obama. Mas, ele falou “we care”, é preciso carinho, que cuidemos das pessoas, que passemos isso pra sociedade. Então, o PSDB está cumprindo esse papel, apresentar ao Brasil, para a discussão, obviamente, para o contraditório, uma série de questões que dizem respeito, a questão econômica, a sair dessa armadilha na qual o governo se meteu hoje, com a mais alta carga tributária do País, juros estratosféricos e um baixíssimo investimento público.

Esse tripé perverso, hoje, amarra as iniciativas do governo. Algumas sugestões foram dadas nessa direção, além de falarmos na questão da educação básica de baixíssima qualidade, a saúde pública trágica para a população de mais baixa renda. A questão da segurança. Então, estamos exatamente iniciando o processo de discussão dessa agenda.

Senador, um bom slogan desde que traduzido, então?

Ele deu uma ideia, o sentido. O sentimento que ele tinha de que o governo precisa cuidar das pessoas, o PSDB não pode se distanciar das pessoas. É o que estamos fazendo, o PSDB tem que assumir o papel do partido que pensa o Brasil, que faz a política em uma dimensão maior do que essa política do dia a dia, do segura o ministro aqui, segura o outro acolá, sem qualquer iniciativa.

Olha, estamos encerrando o primeiro ano do governo da presidente Dilma, qual foi a principal iniciativa, qual a questão estruturante que esse governo propôs? Até para que nós, da oposição, pudéssemos de alguma forma participar desse esforço. Nenhuma, absolutamente anda.  E sabe quais as questões que ela vai propor ano que vem importantes, seja na reforma política, da previdência, tributária, na própria reforma do Estado? Nenhuma. Porque vamos ter eleições, depois temos a segunda metade do governo e, infelizmente, vai ser mais um período perdido.

O que o senhor pensa da retomada das privatizações, corte de 50% dos ministérios e fim dos juros subsidiados aos bancos públicos?

Acho que essas são propostas a serem discutidas. Do ponto de vista das privatizações, temos que assumir de forma muito clara os benefícios que as privatizações trouxeram ao Brasil. Poderia citar vários exemplos, cito em primeiro lugar a telefonia. Temos hoje mais de um celular por cidadão no Brasil, por habitante. Na questão da siderurgia, sou de um estado mineral e siderúrgico, acompanhávamos todos o final de ano as siderúrgicas indo ao governo para fazer com que o Tesouro suprisse o déficit que elas apresentavam. Hoje, o setor se desenvolve. Então, temos que assumir o nosso legado de forma muito clara para apresentar uma agenda para o futuro. O Pérsio (Arida) apresenta uma agenda em relação à questão de juros que vamos colocar em discussão para que o BNDES deixe de ser o grande provedor das grandes empresas com juros subsidiados. Quem sabe fazendo com que os números da caderneta de poupança e do FGTS possam melhor remunerados para ficar na mesma taxa média. É uma ideia importante.

Agora, em termos de privatizações não há muito mais o que fazer. O que foi feito é que foi importante. O que temos que fazer, agora, é parcerias com o setor privado para investimentos como nos aeroportos – está aí o aeroporto Salgado Filho na mesma condição do aeroporto Tancredo Neves, em Minas Gerais, e de dezenas de outros espalhados pelo Brasil sem investimento público porque ele não é suficiente para as obras que precisam ser feitas. Os metrôs estão todos eles atrasadíssimos. Aqui não é diferente de outras capitais do Brasil. Porque, conceitualmente, o PT tem uma enorme dificuldade de trabalhar com o capital privado, além da questão gerencial. Gestão pública eficiente não é… Olha, não há nenhuma medida de maior alcance social, que beneficia mais a vida das pessoas do que o dinheiro público bem aplicado.

Então, quando falamos de gestão pública de qualidade não é um tema áspero, um tema árido para as pessoas. Gestão de qualidade é transparência, foco, prioridade. Um exemplo que foi citado no seminário, para traduzir para as pessoas, só os recursos do malfadado trem-bala que, espero eu, não venha a existir, mas tem sido uma prioridade do governo, serviria para duplicar a malha ferroviária no Brasil. Olha o impacto disso na nossa economia, na agilidade para que os produtos chegassem aos portos e, portanto, maior competitividade. A própria agenda da competitividade, onde é que está?

Estamos vivendo um processo de desindustrialização gravíssimo no Brasil. Em 2000, 60% da nossa pauta de exportações era composta por produtos manufaturados e apenas 40% de commodities. Hoje inverteu. Dez anos apenas e temos hoje 60% da nossa pauta de exportações de commodities. Estamos voltando aos anos 50, virando um país exportador de matéria prima, de produtos primários. É isso que queremos? Sem agregar valor? Sem gerar empregos aqui? Será que é isso que queremos?

O trem-bala é um desperdício na sua opinião?

É uma insensatez. É um absurdo que isso seja, ainda, levado a sério. E o governo insiste, inclusive orçamentariamente, em barganhar recursos para o que não é prioritário enquanto os metrôs das principais capitais brasileiras estão com suas obras atrasadíssimas. Agora, anuncia-se que o governo vai investir R$ 1 bilhão, depois vai financiar estados e municípios. É muito pouco ainda. Os recursos do trem-bala serviriam para resolver o problema de metrô em pelo menos 10 importantes capitais brasileiras pelos próximos 15 anos.

O seu nome está cotado para 2014 como aconteceu nas ultimas eleições.

Olha, o PSDB tem que voltar a pensar o Brasil. O nosso esforço hoje não é de identificar ou definir candidaturas, ma de fortalecer o partido na sua base, unificar o nosso discurso e ousarmos, nos apresentarmos como aqueles que têm condições de apresentar uma agenda pelos próximos 20 anos. O que pensamos em relação à educação básica? Vamos governar com metas, vamos remunerar pelo alcance dessas metas, por desempenho. Temos oito estados brasileiros. Governei Minas por oito anos. Incorporamos na administração pública conceitos de gestão que nós não inventamos não, mas que buscamos no setor privado. Quando falo em avaliação de desempenho, Minas é o estado brasileiro onde 100% dos seus servidores são avaliados pelas metas que alcançam. O setor público não tem que ser ineficiente só porque é público. Ele pode apresentar resultados muito positivos. Então, acho que essa lógica de gastar menos com a estrutura do estado para gastar mais com as pessoas, é a lógica inversa a que o PT, em nível nacional, vem praticando. O PT gasta mais para fazer menos.

Eventos como o de hoje parecem típicos de uma candidatura.

Isso é o carinho dos gaúchos com esse mineiro que vem lá das Alterosas.

O PSDB disse agilizaria a definição do candidato. O senhor acredita que isso vai acontecer até quando?

Eu defendo que nos ocupemos de duas prioridades. O nosso discurso, renovar o nosso discurso, voltar a falar para a sociedade brasileira como coragem, com clareza e disputar as eleições municipais de forma vigorosa. Onde pudermos ter candidaturas, vamos ter candidaturas. Aí, no amanhecer de 2013, acho que PSDB tem que pensar em quem será aquele que vai empunhar essas bandeiras, que vai percorrer o Brasil dizendo que estamos cansados do aparelhamento da máquina, da ineficiência da máquina pública e da absoluta ausência de coragem para implementar no Brasil as grandes reformas estruturais.

A renovação seria bem vinda?

É fundamental. É o que buscamos. Estou aqui exatamente para estimular essa renovação que vem acontecendo aqui no PSDB gaúcho. Estou muito satisfeito com o que estou vendo.