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Assim caminha a humanidade

17 de setembro de 2019

Autor: Marcus Pestana

Vivemos a era das incertezas plenas. Se alguém souber algo sobre para onde vamos, escreva um livro rápido, será best-seller global. As coisas andam um tanto embaralhadas. No século XX tínhamos a Guerra Fria e sua bipolaridade clara. Essa referência naufragou, embora alguns insistam em enfrentar falsos moinhos de vento ideológicos. A globalização enfraqueceu a autonomia dos Estados nacionais. A internet e as redes sociais radicalizaram a integração global. As criptomoedas e a mobilidade do capital financeiro desafiam a capacidade dos Bancos Centrais. A democracia, ideia supostamente consolidada e vitoriosa, sofre ameaças em vários cantos. O desemprego estrutural e a migração dos que fogem da miséria provocam temores e instabilidade. Será que apenas mercadorias e capitais podem ter ampla circulação? As pessoas não? Que liberalismo é esse? O nacionalismo autoritário ressurge das cinzas entre vácuos e interrogações do mundo contemporâneo. O que nos reservará o futuro?

Quem diria que na terra de Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln, Franklin Roosevelt, Eisenhower, Kennedy, Clinton e Obama, insurgiria um líder disruptivo como Trump? Ele e seu desprezo pela democracia e pelas instituições, sua desestabilizadora guerra comercial e seus preconceitos, idiossincrasias e agressividade. E os democratas com dificuldades de erguer um projeto alternativo de poder. Como será o mundo se tivermos mais quatro anos de Trump à frente da nação líder do mundo ocidental?

E o reinado de 20 anos de Putin na Rússia? Seus métodos heterodoxos asseguraram estabilidade política, progresso econômico e relação contraditória de cooperação e conflito com os EUA. Democracia, para quê? Pode-se esperar daí alguma resposta?

De outro lado, o “capitalismo de Estado”, “socialismo de mercado”, ou seja lá o que for da China e seu exuberante crescimento econômico que prenuncia uma nova hegemonia, à custa do sacrifício da democracia e de um pragmatismo que incomoda meio mundo.

A Europa, berço da democracia, enfrenta dilemas e desafios patinando numa crise crônica sem horizonte seguro. Sinais contraditórios são emitidos pelo “Velho Mundo”: o Brexit e seus impasses; a Itália dando um chega pra lá no líder ultradireitista Matteo Savini; Macron, o reformista francês, enfrentando súbita queda de popularidade; a “geringonça” portuguesa apresentando resultados inesperados; e o PSOE de Pedro Sánchez tentando assegurar governabilidade na Espanha. A maior estadista europeia, Angela Merkel, preparando sua retirada de cena com perspectivas sombrias para a próxima eleição. Da Europa também não recebemos respostas animadoras para as angústias do século XXI.

Sem falar nos mistérios do mundo árabe, na miséria desafiadora da África e do ocaso do bolivarianismo na América Latina. Muitas perguntas, poucas respostas animadoras. E o Brasil? Ficará deitado em berço esplêndido assistindo a conflitos e tensões do mundo globalizado. Perdemos a rota do desenvolvimento, possuímos desigualdades sociais absurdas, erguemos uma economia diversificada, mas com grau de fechamento dos maiores e reformas econômicas necessárias e inconclusas.Se alguém tiver respostas sólidas, escreva rápido, aguardamos ansiosos. E la nave va!

(*) Por Marcus Pestana, ex-deputado federal por Minas Gerais e atual secretário geral do PSDB

Artigo publicado originalmente na edição do dia 14 de setembro de 2019 do jornal O Tempo