O que o futuro imediato reserva aos brasileiros

30 de abril de 2016

O perfil cultural brasileiro – fruto de séculos de sincretismo, miscigenação, diversidade e originalidade – acumulou, entre várias outras tradições, o apego a algumas crendices, mitos, dogmas e supertições.

Uma delas reflete o nosso atávico otimismo. Afinal, “Deus é brasileiro”, “o brasileiro não desiste nunca” e “o Brasil é o país do futuro”. Acreditamos sempre que, independentemente de nossas ações conscientes e concretas, alguma coisa transcendental ou divina vai sempre nos salvar de nossos erros ou desvios.

Realmente, o Brasil foi o país que mais cresceu no pós-guerra até 1980. O fantástico desempenho da economia brasileira no período autorizou a visão ufanista sobre nosso futuro. Mas o segundo choque do petróleo, a moratória da dívida externa e a hiperinflação crônica puxaram o freio de mão.

Os últimos 40 anos configuraram o “voo de galinha” na economia e o agravamento dos desequilíbrios fiscais. A Constituição Cidadã de 1988, ao lado de grandes avanços democráticos, deixou inequivocamente uma bomba de efeito retardado no plano fiscal que se tornou insustentável com a mudança de cenário em relação ao crescimento e com a lentidão das reformas que refundassem o desenvolvimento capitalista no Brasil. Compare, leitor, a variação da renda per capita do Brasil, do Chile e da Coreia do Sul, entre 1975 e 2018.

Todas as iniciativas reformistas, como as de FHC – Plano Real, Lei de Responsabilidade Fiscal, Proer, privatizações, reforma da Previdência Social, enfrentaram imensas resistências e produziram resultados aquém dos necessários.

Outra crença difundida e que tem razões verdadeiras é a de que há uma “lua de mel” dos governos com a sociedade em seus primeiros seis meses. A força herdada das urnas deve embasar uma ação enérgica e transformadora na implantação das diretrizes governamentais.

Daí, a fundada e crescente preocupação de lideranças políticas, sociais e empresariais com a deterioração do cenário nacional e os descaminhos do governo Bolsonaro.

Chegamos aos quatro meses de governo com decepcionantes e insuficientes resultados. O governo se perde na falta de coordenação e na energia gasta com assuntos secundários e polêmicos. O jogo entre os polos econômico-liberal, militar, ideológico e familiar, orientado pelo “bruxo da Virgínia”, e os ministros técnicos e políticos tem produzido um jogo de soma zero e realçado a falta de um plano estratégico. O exemplo maior dos “gestos inúteis” foram os ataques do “zero dois” e seu guru ao vice-presidente, general Hamilton Mourão.

Enquanto isso, a reforma da Previdência Social leva três meses para a votação da admissibilidade, houve queda de 179 mil postos formais de trabalho no primeiro trimestre, denotando uma tendência recessiva, e assistimos à queda súbita e consistente da popularidade do presidente, medida pela pesquisa CNI/Ibope.

Se as reformas não avançarem rapidamente, pode haver uma reversão radical das expectativas em relação à economia do país, a “lua de mel” chegará ao fim com a erosão da força política do governo, e o mau humor da população explodirá com a falta de resultados apresentados pela “nova política”.

Nesse caso, o futuro será nebuloso, e, infelizmente, começaremos a desconfiar dessa história de que “Deus é brasileiro” e o “Brasil é o país do futuro”.

Mãos à obra, líderes desta pobre e sofrida nação!

Por Marcus Pestana*

(*) Primeiro Secretário-Geral do PSDB e ex-deputado federal por Minas Gerais 

Artigo publicado originalmente no jornal O Tempo na edição do dia 27 de abril de 2019