Paulo Guedes, o liberalismo e a social-democracia

30 de abril de 2016

Artigo do deputado federal Marcus Pestana (PSDB-MGpublicado no jornal O Tempo (03/12). Leia abaixo:
Todos aqueles que ganham eleições ficam com a adrenalina lá em cima e, às vezes, caem na tentação de negar a experiência histórica acumulada. Cada ciclo governamental é orientado pelas ideias vitoriosas, mas há limites. A era do poder absoluto encontrou seu fim no nascimento da democracia moderna. Não há espaço para delírios como o de Luís XIV, o Rei Sol, que levou ao extremo o narcisismo alienado do poder na famosa frase: “O Estado sou eu”.

Ulysses Guimarães dizia que “O poder é afrodisíaco”, e é bom o apetite inicial dos novos governantes diante de seus desafios, desde que não turvem as vistas e impeçam um olhar claro sobre o processo histórico e seus limites.

Salvo melhor juízo, o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, está indo com muita sede ao pote e ideologizando com radicalismo retórico o debate, quando deveria alimentar pontes e agregar forças para a aprovação das reformas estruturantes. O PSDB terá uma atitude de independência e cooperação.

Ao explicitar seu diagnóstico de que a social-democracia presente nos governos do PT e do PSDB é a grande culpada pela crise brasileira, mais confunde do que esclarece, ao nivelar experiências e momentos distintos, e que ela será superada pelo novo liberalismo redentor. Parece uma versão reciclada à direita do velho mantra lulista “nunca antes na história deste país”.

O liberalismo nasceu como resposta teórica ao movimento de ruptura com o feudalismo a partir do crescimento do comércio no mercantilismo, da Revolução Industrial inglesa e das Revoluções Francesa e Americana. Adam Smith, Ricardo e Stuart Mill consolidaram o pensamento liberal inaugurando a economia política clássica. A social-democracia é fenômeno mais recente, nascido no século XX, principalmente após a grande crise mundial de 1929. Keynes não deve e não pode ser esquecido. Experiências na década de 1970, com Thatcher e Reagan, foram apelidadas de neoliberais, alimentando a polarização ideológica com a social-democracia europeia e com o socialismo real da URSS e do Leste Europeu. A social-democracia encontrou seus limites no grande estrangulamento fiscal que problematizou a manutenção do Estado de bem-estar social. Hoje, no mundo globalizado, esses paradigmas estão anacrônicos. Há mais convergências do que divergências entre o que se pode chamar de “liberalismo” e “social-democracia” no mundo contemporâneo. Temos que dialogar, e não estigmatizar o debate.

Mas é inegável que os governos do PSDB privatizaram as telecomunicações e os bancos estaduais, quebraram o monopólio do petróleo, consolidaram a noção de responsabilidade fiscal e firmaram as bases do câmbio flutuante e do sistema de metas inflacionárias.

Muito há a se fazer. Cada governo dá sua cota para a evolução civilizatória do país. Mas a história não começa nem termina com ninguém.

E aí amplio o provérbio português: “Cautela, caldo de galinha” – e um pouco de humildade histórica – “nunca fizeram mal a ninguém”.