Chegou a hora do Senado se tornar acessível para todos os brasileiros

30 de abril de 2016

Desde 2011, quando assumi o cargo de Deputada Federal, batalhamos muito para que a Câmara dos Deputados se adaptasse para todo e qualquer cidadão. Desde então, o espaço da Casa passou por uma ampla reforma na Mesa Diretora e nas tribunas do plenário, que por décadas não teve acessibilidade para receber uma pessoa em cadeira de rodas.

A Comissão de Acessibilidade da Câmara dos Deputados também implantou um sistema de votos com uma tecnologia que permite votar só com o movimento do rosto. Um investimento justo, afinal estamos falando da Casa onde foi aprovado a Lei da Acessibilidade (Lei 10.098 de 2000).

Trabalhar para abrir caminhos em todas as esferas públicas é ter coerência e respeito à diversidade do povo brasileiro. E é o que faremos agora no Senado, que há pouco tempo atrás sequer tinha banheiro para mulheres próximo ao acesso do plenário. Foram mais de 55 anos para que o Senado construísse um banheiro para as senadoras.

Até 2016, as senadoras tinham de sair do plenário e usar o banheiro do restaurante ao lado porque a única opção era o banheiro masculino, construído em 1960. Isso nos leva a pensar que além de acessibilidade no Senado, também faltam mulheres. Ou seja, chego ao Senado com grandes missões e carregando comigo uma somatória de discriminações: mulher e tetraplégica. Isso tudo me faz lembrar dos caminhos por onde passei até chegar aqui. E das trilhas que abrimos para que outros pudessem construir seu próprio caminho.

Em 2005, quando estava à frente da secretaria municipal da pessoa com deficiência e mobilidade reduzida de São Paulo (SMPED), primeira pasta do país com essa temática criada na gestão do então prefeito José Serra, passamos a fazer uma série de vistorias junto à CPA – Comissão Permanente de Acessibilidade – para reformar pontos importantes da cidade. À época, palavras como acessibilidade e inclusão eram pouco faladas no Brasil e a SMPED tinha uma função primordialmente didática: ensinar a importância da acessibilidade em todas as outras secretarias. Entre outras ações, nosso trabalho resultou no aumento da frota de ônibus adaptados da cidade, que de 300 saltou para 3 mil, além da reforma de mais de 400 quilômetros de calçadas, inclusive as da Avenida Paulista, que se tornou modelo de acessibilidade na América Latina.

Lembro-me também da Câmara Municipal de São Paulo que não tinha acessibilidade e nós conseguimos reformar não só a Mesa Diretora do Plenário, para que qualquer cidadão pudesse discursar, como todos os outros espaços do Palácio Anchieta. Dois anos depois, quando assumi o cargo de vereadora, a Câmara já estava acessível para cegos, cadeirantes, idosos, anões…enfim, para todos os cidadãos que votam, pagam impostos e têm o direito de reivindicar direitos e acompanhar o trabalho de seu representantes.

Olhar para tudo isso e ver o quanto transformamos – tanto nas cidades quanto na vida das pessoas – é o que dignifica a razão por um dia eu ter quebrado meu pescoço. Eu estou de passagem e sou apenas um instrumento para que o Senado e tantos outros locais se tornem acessíveis, como foi com a  Câmara dos Deputados, a toda e qualquer pessoa.

(*) Mara Gabrilli é deputada federal pelo PSDB-SP e senador eleita pelo estado. Artigo publicado no portal Ig na “Coluna Vertebral”. (foto: Alexssandro Loyola)