Por que a mulher faz política, mas está fora dos governos?

30 de abril de 2016

Recentemente, Pedro Sánchez, novo premiê da Espanha, nomeou seu gabinete com mulheres na maioria dos postos de liderança. Pela primeira vez na história do país, o número de mulheres é quase o dobro do de homens: são 11 para 6.

No Brasil, a sub-representação da mulher na política ainda é realidade. Eu mesma faço parte dos tímidos 10% de mulheres na Câmara, percentual quase tão baixo quanto os 16% da bancada feminina no Senado.

Apesar de as brasileiras terem progredido em áreas como educação e saúde, a baixa representação na política foi o principal responsável pelo desempenho no relatório do Fórum Econômico Mundial, que mede igualdade entre homens e mulheres. Em 2017, o Brasil perdeu 11 posições e caiu para 90º entre 144 países.

Além da igualdade de gênero, precisamos lutar por mais diversidade. Afinal, a maior característica do nosso país é a heterogeneidade, ainda pouco representada no Congresso.

Se analisarmos nossos políticos, encontraremos muito mais padrão do que diferenças. Deixamos de ampliar nosso olhar a outras camadas sociais. É o que ocorre não só com mulheres e pessoas com deficiência, mas também com a população LGBT e a indígena, por exemplo.

Hoje já há a reserva mínima de 30% das vagas nos partidos para mulheres, mas isso não se refletiu nos Parlamentos. Muito se deve à falta de investimento das próprias siglas em campanhas femininas e na formação política de mulheres. Por mais vagas que se criem, a disputa com homens ainda é desigual. Sem falar nas “candidatas laranjas”, usadas só para cumprir a legislação.

Além de os partidos se mostrarem legítimos redutos masculinos, a política brasileira ainda se mostra como um “jogo sujo”, desanimando mulheres a se filiarem e seguirem a vida pública. Por outro lado, o número de lideranças femininas fora do Congresso cresce a cada dia.

Sempre cito as mulheres de periferias, que me procuram na luta por inclusão de pessoas com deficiência, melhoria na educação e saúde, entre outras demandas. Daí, percebemos o quanto perdemos quando não temos mais mulheres em cargos públicos, trazendo um olhar diferenciado na elaboração de políticas públicas.

A democracia se fortalece quando há equilíbrio entre homens e mulheres compartilhando experiências. A Espanha já entendeu isso. O que falta para alcançarmos tal pensamento?

*Mara Gabrilli, deputada federal (PSDB-SP) desde 2011 e eleita para representar o Brasil no Comitê da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2019-2022). Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 19/07/18.