Tucanos se mobilizam para construção de uma nova agenda para o país

30 de abril de 2016

“O PT jogou em dois níveis: com golpes acima e abaixo da
cintura. Nestes, simplesmente se apropriou da receita do
PSDB, não deu crédito ao dono e ainda saiu chamando o
conjunto da obra de herança maldita.”

Uma discussão muito produtiva a que o PSDB promoveu na última
segunda-feira com o propósito de iniciar a construção de uma nova
agenda para o partido.

A rigor nem teria a obrigação de reinventar nada. Poderia viver por
um bom tempo dos rendimentos decorrentes do fato de ter alterado
a lógica pela qual os governantes até então conduziam o Brasil,
derrubado a inflação, acabado com a farra dos bancos estaduais,
criada a Lei de Responsabilidade Fiscal, universalizado o acesso à
comunicação, arrumado as finanças públicas em grau suficiente
para que o País começasse a ser levado a sério lá fora.

Mas, contrariamente aos ensinamentos de certo marqueteiro norte-
americano, seguidos à risca pelos adeptos da linha “é a economia,
estúpido”, no que concerne às lides brasileiras a política faz a

diferença. Quando não determina.

Por isso, porque seu principal adversário soube fazer política o
tempo inteiro, é que o PSDB se vê hoje na premência de encontrar
uma nova agenda, reestruturar o discurso, achar um jeito de
restabelecer seu diálogo com a sociedade.

O PT jogou em dois níveis: com golpes acima e abaixo da cintura.
Nestes, simplesmente se apropriou da receita do PSDB, não deu
crédito ao dono e ainda saiu chamando o conjunto da obra de
herança maldita.

Coisa feia. Gente de algum caráter não faz. Mas está feito
e, diante disso, a questão não é mais discutir por que o PT se
apropriou da agenda do PSDB (não tinha outra exequível), mas sim
entender por que o PSDB deixou que o PT fizesse isso com tanta
facilidade.

A resposta é simples e esteve o tempo todo expressa na
configuração do seminário para a construção da nova agenda: não
há política nessa pauta. Haverá outros, diz a direção do partido.

Ótimo. O primeiro foi bem bom. Não é todo dia que se podem
ouvir tantos especialistas competentes nem tomar contato com
diagnósticos tão interessantes, propostas polêmicas, inovadoras,
bons apanhados sobre a situação do País nas áreas econômica e
social.

O PSDB mostrou que sabe reunir gente boa para pensar.

Mas, como mesmo ensinou o orador mais aplaudido do encontro,
o partido anda mesmo precisando é de falar. “Ou fala ou morre”,
avisou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que, aliás,
passou a maior parte dos governos Lula sendo “escondido” por
correligionários ou falando sozinho sobre a política que o partido
deveria adotar se quisesse se firmar como referência para conseguir
voltar ao poder.

Sobre o PSDB e sua relação com a sociedade nada foi dito nesse
seminário. Segundo o presidente do Instituto Teotônio Vilela, Tasso
Jereissati, não era esse o foco.

Esquisito para alguém que tem como adversário um partido que faz
política o tempo todo. O PT nesse campo excede, mas o PSDB se dá
ao luxo da indiferença, como se estivesse em condições de ignorar
o ponto definidor do sucesso ou do fracasso do plano de ganhar
eleições para poder executar as excelentes ideias de seus brilhantes
quadros.

A política entrou na agenda no improviso e por motivos tortos.
Ninguém dos políticos falaria a não ser FH. Mas Tasso chamou Aécio

Neves, que com a chegada de José Serra se viu obrigado a chamar
o oponente. Nenhum deles fez pronunciamento que revelasse noção
estratégica de conjunto.

Cada um para um lado, seguindo suas respectivas linhas. Ao ponto
de Fernando Henrique parafrasear o slogan da campanha de Barack
Obama, “Yes,we can”, para lançar a palavra de ordem “we care”
como proposta de comunicação do PSDB com a massa.

Evidentemente falou sem pensar ou não seria o pensador de
qualidade que é.

Intensivão. Em uma semana Fernando Haddad já cometeu duas
declarações – uma confundindo Itaim Paulista com Itaim Bibi
e outra juntando no mesmo raciocínio USP e cracolândia – que
justificam sua saída o quanto antes do Ministério da Educação para
tomar umas lições sobre como as coisas funcionam em São Paulo.

Ou aprende ou quando começar a campanha para a Prefeitura, o
candidato do PT conferirá uma graça especial ao ambiente.

Fonte: Artigo de Dora Kramer – O Estado de S.Paulo